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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Chegou sedenta


Chegou sedenta

Pensei que fosse de água. Servi-lhe um copo cheio, de água fresca, quase gelada. Vinha da praia com o corpo suado, a pele úmida, um leve perfume. Estava a passeio numa caminhada solitária para conhecer o lugar. Perguntou-me se eu morava ali ou estava de passagem, curtindo o fim de semana. Disse-lhe a verdade. Morava ali, no meu paraíso onde me encontrava comigo mesmo, dissecava a vida tal como ela era, com o bisturi do conhecimento que exala de textos de livros, da Internet, e de um rico passado. Não conhecemos tudo nem uma mínima parte, mas mesmo sem a pretensão de conhecer o tudo, vamos conhecendo as partes que o compõem, tanto quanto pudermos. Parece ser o que podemos levar desta vida, porque aqui chegamos nus e daqui nus sairemos. Não fosse o conhecimento e as lembranças e pareceria ao chegarmos lá, que de nada teria valido o viver, porque seria como se nunca tivéssemos existido. Ofereci-lhe um vinho e o almoço que ainda iria preparar: Frango grelhado com batatas coradas, uma salada, pão feito em casa no forno. Ofereci-lhe o banheiro, xampu, toalha limpa, sabonete, desodorante feminino das sobras de outros dias. Olhou-me nos olhos para medir a confiança que me daria. Aceitou, subiu ao banheiro da suíte no andar superior, tomou seu banho tranqüila e desceu como se fosse outra mulher. Aceitaria o frango com as batatas coradas e dividiria o vinho. Não nos conhecíamos. Jamais nos havíamos conhecido.

Ficou do meu lado tomando seu copo de vinho em pequenos e saborosos goles, enquanto me via cozinhar. Mas o quê? Como se pode chamar de cozinhar ao ato de pegar duas coxas com sobre-coxa de frango, passar-lhes uma pitada de sal, por para assar numa assadeira que previamente forramos com rodelas de cenoura, descascar umas batatas e partir em rodelas que arrumamos ao lado das peças de frango, e à parte preparar uma salada de alface, tomate aos pedaços pequenos, cebola picada, azeite, suco de limão e azeitonas? É um cozinhar muito simples, saudável, saboroso, rápido e que não cansa nem aborrece. Sobra tempo para conversar. Não trocou de roupa, mas a tanga agora estava mais generosa, mostrava as lindas pernas, a pele lisa, e a parte superior do biquíni agora mostrava claramente o arfar do peito. Seus olhos semicerrados não perguntavam, davam-se. Olhou-me nos olhos e disse que o sol estava muito forte naquele dia.  Mostrou o peito levemente rosado, e puxou o biquíni para mostrar a linha que separava a cor rosada da cor branca de sua pele. Não pude deixar de imaginar seus peitos sem o pano pudico em minhas mãos, acariciando-os. Ela aproximou-se. Beijamo-nos. Éramos dois necessitados do carinho um do outro. Não podia haver mal onde havia desejo de entrega, carência de carinho, de afagos, amar sem sermos obrigados a amar, apenas porque queremos amor, sem buscar definição em palavra que é apenas palavra, uma das muitas que nos confundem os significados da vida.

Nada queimou no forno, a salada foi conservada na geladeira até a hora de servir, e a garrafa de vinho ainda era quase virgem, quando nos sentamos na área, à sombra dos mamoeiros para matar uma parte da fome que nos afligia. Conversamos sobre a vida particular de cada um sem nos preocuparmos muito com a verdade. E o que era a verdade senão uma outra palavra das muitas do dicionário do linguajar que nos atrapalha e nos confunde o existir? Verdade era o que ainda não disséramos um para o outro, e que em breve seria dito, tudo a seu tempo, que a vereda da felicidade estava aberta, pronta para ser trilhada, sem censuras, sem obrigações, apenas pelo simples prazer de ser, estar, permanecer, ficar.

E depois do almoço, ali ficamos, permanecemos, estivemos, fomos um só, agarrados, abraçados, tocando-nos para sabermos como éramos, prazeres de existirmos, até que fomos um só, preenchendo o que nos faltava a cada um de nós e gozamos, deliramos, conhecemos o paraíso, o prazer de tornar a obscuridade do desconhecido em luz amiga e conhecida, quente, amorosa, um raio que sobe aos céus e agradece a Deus pelo momento. Uma lembrança para o fim da vida, para além da vida, para chegar no paraíso e dizer: Eu amei!

Amei um à outra e outra a mim, como a mim mesmo. Mais ainda, porque ela tem o que não tenho e tenho o que ela não tem. Mais do que gentilezas nos trocamos um ao outro, e descobrimos o que é felicidade. Sem culpas, sem falsos testemunhos, atestando a verdade que o amor é possível se nos esquecermos do que não querem que esqueçamos e nos lembremos do que nos querem fazer esquecer. A verdade do amor humano prevalecerá e resplandecerá em toda a sua plenitude quando os falsos profetas forem desmascarados e deixarem de proibir para nos governarem com proibições que nem Deus nos proíbe.

Estado civil não é um estado de espírito. É um espírito em determinado estado de existência.

Chegou e foi-se. Não como tinha chegado nem como tinha estado, permanecera, ficara. Foi-se com algo mais, com a vida com outro significado que me deixou de igual forma, com igual significado. Não há como encarcerar almas humanas, porque almas não conhecem grilhões, nem proibições. Almas são livres, habitam corpos que enquanto vivos são compartilhados, mas sempre unos, indivisíveis, a não ser para o amor, quando se compartilham e sentem o prazer de dizer: Eu vivi. Mesmo que nem sempre, mas apenas em curtos e preciosos momentos.

Nunca mais nos encontramos, não sei seu nome, seu telefone, seu endereço. Sei apenas que ela existe. Ela sabe que existo, e sabemos, ambos, que a vivermos juntos, jamais repetiríamos o momento. Tudo seria diferente, porque a água que passa no rio, num determinado momento, jamais volta a passar.

O que pode ser felicidade senão o momento em que se é feliz? Como podemos ter a pretensão de acharmos que podemos aprisionar a felicidade e fazer dela nossa escrava para toda a vida, até que a morte nos separe? São muitos os falsos profetas. Temos que ter cuidado para não jogarmos a vida fora, e os momentos de felicidade, os que justificam o viver, são raros, únicos.

Rui Rodrigues

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Uma velha profissão: Políticos artistas!




Uma velha profissão: Políticos artistas!
 Atores políticos ou políticos atores?
Nos bons tempos de um passado recente, os artistas eram políticos e reclamavam da política. Hoje estão calados. Nem dos políticos artistas reclamam. Os governos encontraram um meio de não reclamarem: Pagam-lhes shows ricamente e a peso de ouro todos os dias, todos os fins de semana, para uma platéia pagante que se ilude com o fato de anunciarem que estes shows são grátis.

Que estamos numa das maiores crises da história, não resta a menor dúvida possível. É fato, é notório, sente-se no bolso, na qualidade dos serviços públicos (ou na sua falta), nas compras de alimentação, em tudo. Respira-se crise, chora-se a vida, e desta vez não é conversa de quem tem a barriga cheia.

E invariavelmente continuamos falando de fulanos e de cicranas, todos políticos, atribuindo-lhes erros pessoais, culpando-os disto e daquilo, e quando se consegue enxergar que a culpa não pode ser apenas deles, culpam-se os partidos.

O regime político, o sistema, os termos da constituição, esses nem se discutem, preferem-se os nomes famosos da grande Broadway da política, toda iluminada por holofotes pagos pela mídia para aparecerem com suas roupas de marca, bem maquiados, sorrisos e comportamento Standard de “alto padrão”, demonstrando poder, discernimento, atenção, preocupação, vontade de resolver. Assistimos a peças todos os dias, vendo e sentindo contradições, muita ação e nenhum resultado prático, desde as três pancadas para abrir as cortinas do palco, todos os dias, até o cair do pano.

São raros os artistas que vêm ao palco receber as palmas. A maioria deles tem o rabo preso de tal modo aos bastidores que não têm como alcançar o palco. Alguns conversam com as autoridades que os inquirem sobre suas atividades escusas.

Foi assim em quase todos os países da Europa em crise desde 2008. A maioria dos que saíram, saíram à francesa, meio à socapa, tentando ser invisível em sua declinação de continuar a governar no palco da Broadway. Alguns ainda pensam em voltar apesar de tudo. Outros dizem que não tiveram culpa de nada e outros que nem se lembram.

E a platéia inteira, desde a platéia propriamente dita até o balcão e as frisas, diverte-se preocupada ao discutir o papel de cada ator, muitas vezes sem mencionar o autor, e muito menos sem ter lido o texto que é uma constituição para se atuar como deveria ser.

Não sei em que momento exato nem porque razão comecei a falar de política e entrei num teatro onde se representam peças todos os dias, como na Broadway, mas estou certo que público pagante e políticos atores também não sabem como se tornaram público nem como se tornaram atores quando o que queriam mesmo era governar a seu modo. Pelo menos era o que diziam à boca cheia pelas ruas e praças das cidades, vilas e campos. E ainda dizem.

Mas no fundo é como se subissem a escadaria de palácio, e ao abrir a porta entrassem no palco logo após passarem pelos bastidores. Pois a culpa de tudo, definitivamente e a meu ver, incluindo estas crises tremendas, são os bastidores: Os políticos entram no palácio, chegam aos bastidores e aí mesmo os transformam em artistas. Isto parece muito claro, porque o discurso antes de subirem as escadarias dos palácios, quando falavam a boca cheia pelas cidades vilas e campos, não é o papel que representam no palco, ao vivo, diariamente. Pelo contrário, são tão diferentes que a única ligação entre os dois comportamentos está nos bastidores. Um bom exemplo é o de um ator da mais tradicional ópera burda italiana, que sumiu sem quase se despedir do público e agora, experiente porque já passou pelos bastidores, apesar de todas as demonstrações de iniqüidade, mostrar desejos de voltar á Broadway. Perdão! Ao governo... Não é diferente em Portugal, onde o novo governo mantém cavacos antigos e tradicionais do tempo em que havia censura no palco e estuda seu papel pelo mesmo texto constituinte dos tempos do que se suicidou desastradamente do alto de uma cadeira que manteve no palco por 48 longos anos. O publico pagante português assistiu pacientemente à mesma peça todos os dias durante 17.520 dias. Haja paciência... E se formos à Espanha, constatamos que o Rei Liar dos tempos modernos sai para caçar elefantes em plena crise, quebra uma perna, é assistido em hospitais às custas públicas, e continua no palco mesmo depois que o PP, uma escola de formação de atores oposicionistas, se mostrou igual aos que combatia, depois que passou pelos bastidores evidentemente, logo que subiu as escadas do palácio, antes de entrar no palco. Nos bastidores se aprende política, entra-se no sistema sem medo de ser perseguido. Os representantes dos partidos e os que financiam as peças de teatro, digo, de governo, estão lá, ensinando política, "grátis". É "pegar ou largar" e todos pegam. è o público pagante que paga tudo. Até o champanhe!
  
Do teatro grego, perdão, da política grega, nem vamos falar... Já têm mais de três mil anos e inventaram o teatro democrático ou a democracia teatral. Para falar a verdade, inventaram a mais linda e bela e eficiente democracia do mundo, mas uma escola de teatro político ou de política teatral, esta liderada pelos Sofistas, do Sófocles, não a permitiram. Era participativa a democracia original, mas o que lhes interessava aos sofistas, para poderem impor os seus papeis no palco, era a Representativa. Ou seja, mesmo que trocassem os atores, a peça continuaria a ser representada "ad eternum"...

Espera-se o renascer do teatro político... Uma nova peça que não seja trágica, nem tragicômica, nem uma comédia. Precisamos de uma peça ultra-realista, tal como na pintura, onde as virtudes e as indecências sejam realçadas e nos entre pelos olhos de forma instantânea, que o público pagante possa entender e nem sinta a necessidade de discutir sobre os atores enquanto representam, porque escreveram a própria peça e a dirigem...

Afinal, o que interessa é a peça e não os autores. A mensagem vem da peça, não dos atores. Atores apenas representam e merecem salário justo por seu trabalho quando seu trabalho é justo. O mérito é da peça!

Breve em cartaz: A Democracia Real, Verdadeira, Participativa! Esta sim, uma peça que vale a pena ver, participar..

Rui Rodrigues


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

História para Maya - As crianças da Caverna Escura


A caixa preta da Caverna.

(Histórias são apenas histórias, sempre fruto da imaginação. Filmes também. O medo sentido quando se vêm histórias no cinema ou quando nos contam em crianças, têm a função de nos preparar para a realidade do futuro e nos ajudar a vencer as dificuldades. As crianças de hoje, porque leram, ouviram ou assistiram a muitas histórias proporcionadas pelos pais, já não têm tanto medo como nas gerações passadas. O medo tolhe, imobiliza, e neste mundo não se pode ter medo de nada, mas deve saber-se sempre quando se deve agir ou ficar quieto perante uma ameaça real).

A caverna fica nos fundos da casa à direita. 

  1. A chegada na caverna escura

Quando empurraram Maralice para dentro da caverna, sentiu medo. Um medo muito grande. Aquilo não era uma brincadeira, e alem da escuridão total, fazia frio. Parecia que tinha entrado na geladeira da mãe dela, bem lá em cima no freezer onde fazia mais frio. Tentou sentir onde estava e percebeu que não estava só. Lá ao fundo ouviu um choro de criança como ela. Foi caminhando na direção do choro, muito devagar para não cair ou bater com a cabeça em alguma coisa, porque não enxergava nada, até que sentiu algo tocar em seus pés. Agachou-se e viu que eram os pés de uma criança que chorava, encostada na parede de pedra de uma caverna. Aquilo era uma caverna. Ouviu uns chiados e algo lhe bateu no rosto, algo fedorento. Eram morcegos. Agora que seus olhos se habituavam à escuridão percebeu que estava numa gruta cheia de morcegos, e que à sua frente estava uma menina que chorava. Aquilo nem era choro, era um soluçar triste de perder a respiração. Perguntou-lhe porque chorava, porque estava ali. A menina se agarrou a ela e disse no seu ouvido:
- É gente má que nos raptou. Pode olhar à volta, quando conseguir enxergar, que há mais meninos e meninas aqui nesta gruta. Estamos todos presos e alguns, os mais velhos, estão presos por correntes para não fugirem. Como apanharam você?

- Eu... Eu... Ofereceram-me balinhas e chocolates e me disseram que havia mais no carro ali perto e disseram que eu fosse até lá. Eu fui. Então me empurraram para dentro do carro e saíram às pressas dali, da pracinha onde eu brincava, e me trouxeram direto para cá. Taparam-me os olhos para eu não ver para onde iam. Eu me chamo Maralice e você?
- Delia. Chamo-me Delia. Disseram que minha mãe estava no carro e me levaram até lá. Quando cheguei vi que não era o carro de minha mãe, e quando ia reclamar me empurraram também. Foi muito rápido. Também me taparam os olhos e me trouxeram para cá. Estou com sede e fome. Eles dão comida?
- Só três vezes por dia. Tudo sanduíche e água. Quando queremos fazer numero um e numero dois é num banheiro improvisado aqui nos fundos que tem um pouco de luz que vem não sei de onde, mas quase não se vê nada. Cheira mal e não temos como limpar. Já tentamos gritar mas não adianta. Ninguém escuta. Isto aqui é uma caverna.
Caverna escura quando a porta está aberta
- Quantos somos aqui? Perguntou Delia.
Uma voz mais grossa, de menino mais velho, veio lá do fundo. O garoto devia ter uns seis anos e estava com as penas amarradas por correntes a uma argola de ferro.
- Somos cinco: três amarrados e vocês duas. Meu nome é Marcos, os outros são Felipe e Beto. Nós três chegamos juntos. Estávamos jogando uma partida de futebol numa pracinha, chegaram uns caras dizendo que jogávamos muito bem e que queriam nos apresentar a um cara do Flamengo que estava sentado num banco. O cara disse que nos ia dar uma camisa do Flamengo e nos passaram algodão com um líquido que nos fez desmaiar. Depois chegamos aqui. São uns bandidos. Estamos com saudades de nossas mães, de nossos pais. Passaram o dia andando pela caverna. Maralice encontrou uma caixa grande de madeira com tampa. Tinha um cadeado e estava bem no fundo da caverna de frente para a porta da entrada. Era muito pesada e não podia movê-la. Avisou os outros.
Central de Polícia

  1. Na central de polícia

Maibi e Maya estavam na central de polícia. Havia guardas entrando e saindo, viaturas da polícia, homens e mulheres presos com algemas, algumas pessoas até tinham boa cara, mas a maioria era mal encarada mesmo, com cara de bandidos. Devia haver uma fábrica de fazer bandidos, porque quase todos eles tinham a mesma cara: Eram muito mal encarados. O olhar deles era duro, e nem rindo conseguiam ser simpáticos. Outros tinham até olhar doce, meigo, estavam bem vestidos, mas estavam com algemas e isso não podia ser nenhuma injustiça. Não se pode acreditar nas pessoas só pela cara e pela simpatia.
Maibi e Maya estavam na central de polícia para fazer uma queixa. O capitão da polícia, o capitão Pires, perguntou educadamente:
-Pois não, minha senhora, o que a trás aqui?
Maibi, mãe da Maya, falou:
- Estávamos na pracinha e vi quando um senhor chegou perto de uma criancinha e lhe ofereceu o que pareceu ser uns doces de chocolate. Não achei estranho porque pensei ser pessoa de família. O que achei estranho foi que quando voltei a olhar na direção de onde a criança tinha ido, um carro preto, o carro estava arrancando e pude ver que a criança se debatia lá dentro. Poderia ser uma criança daquelas irrequietas, poderia, mas não gostei da cara da motorista. Era mal encarada. Anotei a placa.
E Maibi tirou da bolsa um papel com o número de uma placa. E continuou:
- Pode não ser nada, mas resolvi vir aqui com minha filha e contar, porque se for assunto de família, ótimo. Se não for, estarei à disposição para ajudar. A criança pode ter sido raptada e como mãe não gostaria que isso acontecesse com a minha filha. Seria terrível.
- Agiu muito bem, minha senhora. Por favor, deixe o seu telefone para entrarmos em contato se vier a ser necessário. Se todos agissem assim nesta cidade, denunciando, a vida de todos nós seria mais tranqüila.
Maya, com seus quase quatro anos não se conteve e disse também:
- Se encontrarem os bandidos, prendam-nos a todos e se eu estivesse com a minha roupa de princesa Maya, eu mesma ia atrás deles e os obrigaria a virem aqui se entregarem para ficarem presos. Isso não se faz. É muito feio.
O guarda sorriu, e perguntou:
- Como é mesmo seu nome?
- Meu nome é Maya. Ás vezes sou a princesa Maya...
-Ora diga lá, princesinha Maya... Porque acha que eles são bandidos?
- Porque já vi aquela menina vir para a pracinha muitas vezes e vem sempre com uma babá. Hoje nem vi a babá...
- Maya... Porque não me contou antes que conhecia a mocinha?
Maya olhou admirada para a mãe e soltou: - Caraca, mãe... Porque você não perguntou... Nem me disse que vinha na delegacia. Se tivesse dito, eu contava...
O guarda e Maibi sorriram.
- E qual o nome da sua amiguinha, princesa Maya... Isso ajudaria muito – Perguntou o policial.
- Maralice... O nome dela é Maralice. É lourinha como eu e a babá dela também. O homem que a levou para o carro eu já o vi com a babá.
O policial ia anotando tudo num papel. Voltou a dizer que entraria em contato se fosse necessário. Quando terminou, agradeceu e Maibi e Maya saíram da delegacia. Estava na hora de Maya tomar o seu lanchinho com leite de chocolate, suco de fruta e um grande donut que gostava de molhar no leite de chocolate.  

  1. Na toca dos bandidos

Um sujeito bem arrumado, penteado, bonitão, simpático disse para a mulher que estava sentada no sofá vendo televisão.
- Não tira os olhos da TV. Se precisar sair do sofá, fica com os ouvidos atentos. Se as famílias forem ricas, pedimos resgate. Se não forem, vendemos a garotada. Entendeu? Não saia daí...
- A mulher assentiu com a cabeça. Pegou uma lata de cerveja, abriu e esticou as pernas para relaxar, empurrando-as contra o chão e sorveu uns longos goles de cerveja gelada. Disse laconicamente:
- Pódeixá. Já estou com o bloco de notas para anotar tudo. Logo vão dar notícia de desaparecimento. Há uma semana que raptamos crianças e nada de notícias na TV. Parece que gostam de silêncio ou que ninguém se interessa por raptados. Será que não divulgam porque não é matéria paga?
-Não sei nem me interessa, Ra. Vou dar uma olhada nas crianças.
-Certo, Boni, eu fico na minha.
O sujeito abriu a porta da casa, feita só de tijolos, no meio do mato e entrou numa casinha pequena nos fundos. Abriu a porta. A uns três metros, na parede em frente, havia um buraco e outra porta. Esta dava para uma gruta. O cano, que tinha sido instalado por dentro da parede, permitia ouvir os sons que vinham da gruta. Estava tudo em aparente silêncio. Então colocou uns óculos para ver de noite, e fechou a porta da rua. Tudo ficou escuro porque aquele aposento não tinha janelas. Quando abriu a porta pôde ver que as crianças estavam em seus lugares. Os garotos amarrados e as duas meninas uma junta á outra. Soluçavam. Nenhuma das crianças viu o homem naquela escuridão. Tirou os óculos especiais, fechou todas as portas, saiu e entrou na casa da frente onde estava a moça chamada Ra. Disse:
- Estou pensando... Se pudéssemos pegar aquela menina bonitinha que a mãe chama de Maya... Sei que é perigoso voltarmos lá na praça. Teríamos que fazer de forma diferente. Seriam três garotos e três meninas. Seria uma boa grana.

  1. Na casa de Maya
- Mãe... Aquela gente toda na polícia. Com algemas. Coitados. O que eles fizeram? – Perguntou Maya enquanto desenhava no quadro negro que a mãe tinha colocado na parede do quarto.
- Coitados? (Maibi estava admirada com a candura da filha). Alguma coisa ruim devem ter feito, porque a polícia só prende bandidos e pessoas para fazer perguntas quando são suspeitas de ter feito alguma coisa ruim.
- Pois é, mãe. Se me oferecerem alguma coisa na rua, eu corro pra você. Não aceito não.
- Isso, Maya. Já deixei você alguma vez sozinha?
- Não! ... Tem sempre alguém perto. A dinda, o dindo, a vó, você e até o vô Rui quando vem aqui em casa. Vocês não largam do meu pé... – E Maya riu às gargalhadas.
-É Maya, mas toma sempre muito cuidado. Estamos sempre por perto, mas vai que em algum momento não estamos. Nunca saia do lugar onde estiver. Alguém vai chegar. Se você não sair do lugar te encontramos. Caso contrário, já viu... Não temos jeito de te encontrar. O que você está desenhando?
- O homem do carro que levou a menina. Está bem parecido.
Maibi olhou o desenho. Eram uns garranchos muitos bem desenhados, com proporções, mas o rosto podia ser o de um milhão de homens residentes em qualquer lugar do Brasil. Era branco, jovem, o cabelo bem cortado virado para um lado. As orelhas deveriam ser grandes porque Maya as desenhara assim e usava óculos escuros. Maya olhava para a mãe apreciando o seu lindo desenho quando pôs a mão sobre os óculos do rapaz e disse:
- Os olhos dele são pretos.
- Como você sabe, se está de óculos?
- Estava de óculos hoje, mas já vi os olhos dele outro dia.
- Ha... Tá... E o que é aquilo ali no braço dele?
- Aquilo... Você não está vendo, mãe? “Aquilo” é uma tatuagem. Se mostrar uma igual sei qual é.
 Maibi foi para o computador, digitou “tatuagens”, olhou, mostrou para a Maya. Depois digitou “tattoo”, que era tatuagem em inglês e outras imagens apareceram. Maya apontou para uma delas.
- É essa mãe! – Maya mostrou um enorme dragão vermelho jogando fogo pela boca e pelo nariz.
Não se tinham passado mais de dez minutos no computador. Maibi pegou a máquina fotográfica digital, tirou uma foto do desenho de Maya, baixou a imagem do “tattoo” para o pendrive e desligou o computador.
- Vamos deitar, dona detetive desenhista, que por hoje chega, já é tarde e precisa dormir para ir para a escola amanhã cedo... Já nanar...
Na manhã seguinte a primeira coisa que Maibi fez foi passar na delegacia para mostrar o desenho de Maya e o tattoo. O capitão apresentou-a ao Delegado que ao ver o desenho de Maya disse: Perfeito! Desenho perfeito... Eu conheço esse rosto. É do Boni, um foragido da polícia.

  1. A caixa preta na caverna

Noite ou dia para as crianças na caverna era sempre noite porque não entrava luz. Boni sempre fechava a porta da entrada, colocava os óculos para ver de noite, e só então levava a comida para as crianças e substituía o papel higiênico. Quem lavava o banheiro eram elas mesmas. Nessa noite, Boni tirou as correntes dos meninos dizendo:
- Agora que já sabem se comportar vou tirar as correntes, mas não façam bagunça senão vou fazer vocês chorar muito.
Depois saiu fechando a porta.
Soltos, os meninos esticaram as pernas. Foram ao banheiro. Depois voltaram e junto com as meninas combinaram de tatear toda a caverna, para saberem como era e se tinha alguma coisa por lá além da caixa enorme que Maralice tinha encontrado. Nada. Não havia nada mais, Voltaram à caixa. Não sabiam se tinha alguma coisa dentro. Resolveram usá-la para se sentarem. Mais tarde, as crianças não sabem quando nem a que horas, porque na escuridão perdiam a noção do tempo, Boni voltou. Ao sentirem abrir a porta as crianças levantaram-se da caixa e ficaram em pé. Boni trouxe-lhes uns colchões, travesseiros e lençóis para elas dormirem e voltou a sair. O primeiro a chegar, Marcos, já estava ali há três dias. Não tinham idéia de quanto tempo ainda iriam ficar ali. Beto e Felipe concordaram que para trazerem colchões ainda iriam passar muito tempo naquela prisão. Os colchões vieram em cima de uns estrados de madeira.
- Felipe...- Disse Beto – Vamos abrir essa caixa!
- Como? Não temos como. (Felipe tinha certeza que era impossível. Não havia nada que pudessem usar para abrir aquela fechadura).
- Temos sim. Lembra que tínhamos combinado explodir o ralo do play hoje?
Felipe lembrou-se. Beto adorava fogos de artifício e com a mesada do pai tinha comprado umas “cabeças de nego”. Já tinha feito isso antes e até tinha voado pedra até o segundo andar do edifício. Eles e os gêmeos lá do prédio, embora fossem crianças exemplares, legais, simpáticas, de vez em quando fugiam do padrão e faziam coisas dessas, como derrubar bananeiras do jardim para roubarem os cachos. Não era exatamente roubar. A síndica do prédio é que se aproveitava da área de jardim, plantava bananeiras e não dividia com os condôminos. As crianças do prédio até faziam uma certa justiça. Por isso ninguém as denunciava quando cortavam as bananeiras.
- E o barulho? – Perguntou Felipe preocupado.
- Ninguém vai ouvir. Lembra que gritamos e ninguém nos escuta? – lembrou Beto
E se lançaram ao empreendimento. Não tinham fósforos, mas Beto aprendera com o pai a fazer fogo esfregando uma madeira na outra até esquentar bastante e uma delas pegar fogo. Do estrado de madeira dos colchões conseguiram tirar umas lascas pequenas e furá-los para tirar a espuma de nylon que sabiam que pegava fogo muito facilmente. E começaram o trabalho de esfregar uma madeira na outra, revezando-se os três: Beto, Felipe e Marcos. Não sabem quanto tempo se passou, mas como não estavam com fome, ainda demoraria a que o tal de Boni lhes vir trazer comida. Beto tirou quatro cabeças de nego do bolso, amarrou-as à fechadura do Baú com os plásticos do colchão que o Boni nem tivera o trabalho de retirar, e envolveu tudo com enchimento dos colchões, pronto para ser ateado fogo. Quando finalmente Felipe gritou que tinha conseguido uma brasa na madeira, todos sopraram para que desse uma pequena chama. O forro do colchão usado como combustível logo pegou fogo. Levaram-no até as cabeças de nego e prenderam fogo. A outra parte do forro do colchão que estava envolta em plástico à volta das cabeças de nego logo pegaram fogo. Todos se afastaram para o fundo da caverna. De repente, quando menos esperavam...

                                                                                                                        CABUM!

Foi um “cabum” enorme porque as quatro cabeças de nego estouraram ao mesmo tempo. Ouviu-se um barulho metálico. O cadeado estava solto com a violência do estouro. Os restos das chamas ainda permitiram ver o que continha o baú. Era uma caixa de ferramentas. Tudo enferrujado. Aquela caixa poderia ser a salvação deles. Por sorte nem o Boni nem a Ra tinham ouvido o barulho. Boni tinha saído e ra estava de olho nas notícias da TV.

  1. Na delegacia os pais das crianças estão desesperados.

Os pais das crianças choravam, desesperados, porque amavam muito os seus filhos e temiam que os bandidos os maltratassem. Queriam justiça. Reclamavam da falta de segurança. Havia psicólogos na delegacia que tentavam conversar com eles. Quando o capitão Pires apareceu, junto com o delegado, as perguntas e as reclamações subiram de tom. Os ânimos estavam exaltados. Pires tentou serenar os ânimos:
- Calma. Calma. Senhores pais e mães... Por favor... Tenho notícias.
Fez-se silêncio que até dava para ouvir as moscas se houvessem moscas na delegacia. (E continuou) – Dona Maibi e a filha dela Maya, nos deram a placa do carro do último rapto, o da menina Maralice, Maya, fez uma excelente descrição do bandido, com um belo desenho que fez. Esse bandido usa uma tatuagem no braço que Maya também identificou. Graças a ela, conseguimos identificar o bandido. É um sujeito foragido da justiça e em breve o apanharemos. Confiem na polícia. Tudo vai acabar bem.

  1. As crianças pensam rápido

Felipe avisou que se não tinham ouvido o barulho do estouro das cabeças de nego, ou era porque os bandidos não estavam em casa, ou por que não tinham ouvido mesmo e deveriam aproveitar o momento para derrubar a porta com as ferramentas. Poderiam fazer barulho à vontade, menos na ultima porta, porque essa estava bem de frente para a casa onde os bandidos moravam e bem perto. Pegaram as ferramentas e começaram a bater na fechadura até que os parafusos se soltaram. A porta abriu. Primeiro ficaram meio cegos pela luminosidade. Depois que se habituaram, viram a segunda porta. Incrivelmente só estava encostada. Empurraram a porta bem devagar, e foram saindo sem fazer barulho. Abriram o portão da rua que também só estava encostado e caminharam juntos como se estivessem passeando. Quando chegaram a uma rua maior onde passavam ônibus, fizeram sinal para o motorista e contaram rapidamente que tinham sido raptados e que haviam fugido. Queriam uma carona até a delegacia mais próxima. O motorista disse que não, mas aí o povo começou a gritar:
- Que é isso, motorista? Vai deixar as crianças sozinhas sem ajudar? Não senhor!... Vamos até a delegacia mais próxima...
O motorista se convenceu e as levou até a delegacia. O ônibus e os passageiros foram liberados em seguida. Uma viatura da polícia as levou até a Central onde o capitão Pires já as esperava junto com os pais delas.

A história saiu nos jornais e nos noticiários das redes de televisão, com o desenho de Maya estampado na primeira página. Uma cópia está na delegacia de Polícia bem por detrás da mesa do capitão Pires que conta a história para todo mundo que pergunta que desenho é aquele:

-É o desenho da mais jovem detetive mirim desta delegacia. Ela desvendou o crime e os bandidos estão presos. Só tem três anos e oito meses...

Fim da história... Gostou? Pede para ler de novo!

Rui Rodrigues

Betinho Viking está na Noruega....

Betinho Viking e Benjo Samurai San.


Viajamos muito juntos. Eu e meu filho Beto.

Assim, que me lembre, a primeira viagem que fizemos juntos foi num feriadão no Rio de Janeiro. Saímos da cidade e fomos até Pati do Alferes desfrutar da tranqüilidade de um hotel fazenda. Mas ele nem se lembra. Tinha uns seis meses, mal se sentava ainda e a foto dele, sentado ao sol na grama, tentando apanhar folhas de uma planta, não mostra bem a realidade. Logo a seguir, ele tombaria. Depois se sucederam muitas viagens. Ao Rio Grande do Sul, a Angra dos Reis quando freqüentávamos a casa do tio Oracy e da tia Martha, mas eram viagens pequenas. Um dia saí de Barraquilla e nem posso descrever a ansiedade e depois a minha alegria quando fui apanhar Betinho e Maibizinha no aeroporto de Bogotá. Eu já estava em Barranquilla num projeto da Morrison Knudsen e eles viajaram desacompanhados – a mãe ficara ainda mais uns dias no Rio de Janeiro. Há olhares que não se esquecem jamais. O olhar de alegria dos dois subindo as escadas ao meu encontro, os corações batendo apressados (sempre fui do tipo de pai de abraçar meus filhos ouvindo as batidas do coração. As batidas do coração são a verdadeira alma, indicam a alegria ou a tristeza).

Depois as viagens se sucederam umas às outras. De Porto Bolívar (Media Luna) para Barranquilla, a Cartagena de Índias, Porto Rico, México, Estados Unidos de Costa a Costa, Aruba, Curaçao, Jamaica, Portugal. Também viajaram sem mim e sem a mãe pela Europa, de trem com uma amiga, a Marcinha, usando trem. Já maior de idade, fui com Beto a Amsterdã para conhecermos o “red lights on”, sem direito a “curtir” o lugar. Também viajei sem eles, mas senti a sua falta. Filhos devem ser como roupa, colados ao corpo, como uma extensão de nosso corpo, de nossa mente, porque nossos genes estão lá, e mesmo que não estejam, a convivência e o coleguismo os substituem muito bem. É o que pais adotivos costumam dizer e nos quais acredito.

Suzana costumava cozinhar com Maibi. Suzana foi a avó dela. A vida moderna muitas vezes não nos permite cozinhar assiduamente, mas Maibi aprendeu com a avó, com a mãe e comigo. Não era raro irmos para a cozinha e enquanto conversávamos, íamos alegre e divertidamente cozinhando. Betinho é dois anos mais novo do que Maibi. No começo, ficava olhando. Depois começou também a cozinhar. Creio que o que o fez despertar para a cozinha foi um acontecimento marcante em nossas vidas, quando ele tinha quatro anos. Tínhamos ido acampar na Rio Santos e um amigo meu, japonês, que trabalhar comigo em S. Paulo, o Kasuo, estava casualmente numa barraca ali perto. Eu e Beto pescávamos nas rochas e chegamos com uns dez peixes galo que Kasuo nos ensinou a preparar à sua moda: Sashimi popular, cortado em cubos numa tigela, com molho shoyu, limão e gengibre ralado. Betinho gostou tanto que hoje tem a profissão de Sushimen com experiência em restaurantes japoneses de Lisboa, Barcelona e pelos vistos agora a um passo de nova experiência em outro país.

Dizia-lhes quando eram criancinhas de carregar pela mão, que deveríamos ter “hobbies” interessantes, dos quais gostássemos bastante, para o dia em que parássemos de trabalhar numa determinada profissão em que fomos ultrapassados por gerações mais novas, até para sobreviver.

Curiosamente, tanto Betinho como Maibi fizeram dos hobbies a profissão. Longe de lamentar, regozijo-me com os rumos que levam.

Betinho está na Noruega num lugar em que, no verão, os dias não têm mais do que quatro horas de sol quando não há nuvens. Felizmente, também, a Noruega não é um país eminentemente capitalista, socialista ou comunista. È um belo país Humanista onde todos trabalham para o bem estar comum.

Temo, sem temor, que o Brasil passe a ser um país “Hobby” de Betinho... E creio até que seja uma tendência da humanidade. Quando vim para o Brasil, cheguei como português que já admirava este país.  Amo-o tanto que casei com uma gaúcha, tenho meus filhos brasileiros e por aqui terei a minha ultima morada. Luis Cláudio, um grande amigo nosso, saiu do Nordeste e foi trabalhar em Lisboa. Tem dois filhos portugueses e por lá ficou adquirindo dupla nacionalidade. Diz que não voltará a viver no Brasil. Vem de vez em quando matar saudades.

Beto “Viking” e Benjo Samurai San estão na Noruega.

Rui Rodrigues
 



terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

QUARTA FEIRA DE CINZAS


QUARTA FEIRA DE CINZAS
Marlene Caminhoto Nassa

Hoje é dia de cinzas
Cinzas dos meus amores
Que trouxe consigo
As dores
E me retirou as cores
Deixando o cinza na alma
Vampirizando todo o carmim
Que havia em mim
Nesta triste encruzilhada
Com a fantasia rasgada
E sem placa de orientação
Só o cinza me rodeia
Neste cinzento alvorecer
E me envolve numa teia
Que me confunde o querer
Aos poucos em pó
Vou me tornando
E o vento espalha sem dó
Cumpro do destino a triste sina
Que em cinza nos transformou
E na quarta feira de cinzas
Na encruzilhada dessa esquina
Nossas cinzas espalhou...

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Conflito Israel-Palestino - o cerne da questão




(Ou, o cadinho Sírio-Palestino e Israel na terra de Canaã).

Há sempre a curiosidade de saber qual a posição do autor de texto sobre o que pensa a respeito do que escreve. Abrindo minha alma à curiosidade pública, acredito em D’Us do povo hebreu com uma particularidade: D’us não é como se imagina. Foi imaginado de acordo com os conhecimentos da época. Já evoluímos o bastante para termos uma visão de Deus melhorada, mais evoluída. Na medida em que evoluímos, D”us se revela na mesma medida. Por isso posso compreender cristãos e muçulmanos, hindus e xamans, espíritas e judeus, qualquer religião deste planeta, quer das que jazem no pó, quer das que ainda serão criadas. A busca pela verdadeira natureza de D”us é constante, um motivo da vida neste planeta.

Quanto mais soubermos dos fundamentos da idiossincrasia dos povos do Oriente Médio, e em particular da região palestina, mais preparados poderemos estar para resolvermos a crise milenar que assola a região. Se naqueles tempos de cerca de 3.200 anos atrás, os povos não estavam preparados para uma convivência pacífica e agora ainda pareçam não estar, certamente começa a ser possível, até porque o nível de instrução e conhecimento dos povos da região e de sua história é mais desenvolvido do que antes. Se tivermos evoluído para uma espécie mais inteligente, mais humana, a crise se resolverá rapidamente e da melhor forma para toda a região.

Três fatores são determinantes nas discórdias entre as nações desta região: A economia e a religião de um lado que podem ser mais facilmente resolvidos e a idiossincrasia. O problema maior está na idiossincrasia delineada por milênios de religião e fatores econômicos.

Ugarit e a terra de Canaã.

Ugarit, cidade Cananéia da antiguidade é importante por sua relação com o povo hebreu ou Habiru conforme eram chamados pelos egípcios, e por seus textos deixados em escrita cuneiforme, atestando contratos políticos e comerciais e textos religiosos.
Ugarit, uma cidade portuária, situava-se onde hoje existe a cidade de Ras Shamra na costa mediterrânica a norte da Síria. Desde 1928, quando as suas ruínas foram descobertas, que se vêm efetuando escavações arqueológicas. Os primeiros assentamentos no entorno da cidade situam-se em cerca de 8.000 anos atrás quando foi construído um muro enorme em torno da cidade. Era uma cidade muito próspera, localizada entre as cidades bíblicas de Ur e Eridu.  Para se ter uma idéia de sua importância e desenvolvimento, por volta do ano de 1.450 AC contava com quatro enormes bibliotecas – escrita cuneiforme em placas de argila – com textos nas línguas Suméria, Hurrita, egípcia, luvita, eteocretense, Acádia e Ugarítica (30 letras correspondentes a sons, sendo 27 consoantes e apenas 3 vogais que podem ter dado origem ao alfabeto fenício, extremamente similar). Uma biblioteca ficava no palácio, outra no templo de Ba’al e duas eram particulares. Não admira por ser porto de entrada para a região do Tigre e do Eufrates de mercadorias que chegavam desde portos continentais europeus e da ilha de Creta. 

Temos que nos habituar à idéia de que naqueles tempos havia cultura, economia, religião, sociedades que começavam a construir pólos de desenvolvimento social. Ugarit tinha um palácio enorme com oito pátios internos, suntuoso com 90 quartos e dois templos enormes no topo da colina da cidade: Um destinado ao deus Ba’al, filho de El, e outro ao deus Dagon da fertilidade e do trigo. As cidades de então eram cidades-estado com maior ou menor área de influência. Ugarit pagava tributo aos faraós do Egito.

A partir de El, o “Pai da Humanidade”, o “Criador da Criação”, o Deus superior de um panteão de deuses que foram surgindo, a influência religiosa acabou afetando as relações entre as cidades-estado. Os deuses dessa época eram eminentemente guerreiros, e cada cidade-estado achava que seu deus era melhor, mais forte, controlava a natureza e a sua sociedade, protegia seus exércitos. Um dos legados mais importantes encontrados nas escavações foram textos intitulados “Ciclo de Ba’al” que descrevem a base da religião e do culto a Ba’al o deus das terras de Canaã. Filho de El. Helohims (daí deriva El), cuja corte contava com muitos deuses: Hadad, Yam, Asserá ou Athirat, Shahar, Thirosh, Shalim, e outros.


O povo hebreu ou israelita

O povo israelita chegou tarde a Canaã, por volta de 1.200 AC, a julgar pelas mais recentes escavações realizadas na região, instalando-se em pequenas aldeias não fortificadas, perto de cidades-estado. Isso aconteceu justamente quando Ugarit estava chegando ao final de seu declínio. A Torá, ou Antigo Testamento foi coligido entre 600 AC e 100 AC. baseado em fortes tradições e segundo interpretação de quem escreveu seus textos. Alguns historiadores dizem que estas aldeias israelitas foram fundadas por camponeses que conseguiram subtrair-se ao controle das cidades-estado. Outros dizem que foram fundadas por imigrantes nômades de Edom e Moab. Outra hipótese é a de que os Habirus (semelhante a hebreus) que viviam no Egito á margem da sociedade egípcia, trabalhadores das obras de Ramses II (1304- 1237 AC) tenham saído para viver na terra de Canaã, dando consistência aos relatos bíblicos.
Seja como for, é fato assente que o povo de Israel dividiu a terra de Canaã com os habitantes que lá já se encontravam a partir de 1.200 AC. E trouxeram uma nova religião ou criaram uma nova com base no conhecimento que tinham na época. Não pode ser por puro acaso que El passou a ser o Deus da criação, o único Deus de Israel e dos Universos, após uma fase em que adoravam vários deuses. Foi como se Israel procurasse a sua identidade, a sua idiossincrasia como um povo independente, com um Deus guerreiro e protetor que consolidasse sua soberania perante os demais povos. Tinha o mesmo direito do que os outros. A ocupação da terra era assim naqueles tempos e sempre foi dessa forma ao longo da história: A conquista "apoiada" numa entidade divina que garantia o sucesso do empreendimento. 

O povo hebreu, habitando pequenas aldeias na região, manteve-se à margem das cidades-estado cananeias até cerca de 1.000 AC, quando uma combinação de fatores políticos e econômicos levou à formação do Estado de Israel com governo centralizado num rei, Saul. A organização política foi copiada do novo império egípcio; a burocracia foi recrutada das cidades-estado cananeias  pelo menos aparentemente; a ideologia baseava-se em modelos mesopotâmicos e cananeus.  O segundo rei de Israel, David, unificou os dois grupos em que os hebreus estavam divididos e não raro lutavam entre si: O Meridional e o Setentrional. Ele e seu filho Salomão governaram ambos os grupos a partir da cidade de Jerusalém, a meio caminho entre o Norte e o Sul. Apesar de todos os cuidados o povo hebreu não se sentia seguro face ao poderio das cidades-estado nas fronteiras de seu território.

Seus temores eram verídicos. Cerca de 720 AC o reino israelita setentrional, ou reino de Israel, foi reduzido à condição de vassalo, depois abolido e o território convertido em mais uma província Assíria. A classe dominante israelita dispersa por várias províncias assírias. O povo se integrou às novas sociedades para onde foi levado. O reino Meridional, ou reino de Judá tornou-se um estado vassalo dos Assírios. No final do século VIII AC, o império Assírio foi sobrepujado por uma coalizão dominada pela Babilônia que imediatamente invadiu e tomou toda a Síria-Palestina. Em 597 AC, Nabucodonosor da babilônia, insatisfeito com o comportamento do rei de Judá ocupou Jerusalém e nomeou outro rei, além de deportar todos os artífices, letrados, ricos, metalúrgicos. Este rei tentou rebelar-se e mais uma vez. Em 586 AC, Nabucodonosor invade Jerusalém e desta vez a destrói por completo, incluindo o templo de Salomão. O rei assistiu à execução de seus próprios filhos, foi cegado e deportado. Tal era a raiva contra o povo hebreu na região e a fama que dele se espalhou como exemplo da dominação assíria e babilônia. No século VI AC o rei persa Dario permite a volta do povo judeu a suas terras.

Em 66 DC o império romano destruiu o segundo templo de Salomão e arrasou a cidade de Jerusalém. Em 135 DC, o povo judeu foi novamente expulso de suas terras, desta vez pelos romanos, no tempo do Imperador Adriano. A raiva e a fama eram desta vez espalhadas pelo povo romano.
  


Yaweh e o povo hebreu

Não se pode afirmar com certeza da origem de Yaweh, o Deus israelita, que, por mais que tentem esquecer, ou dissociar de suas religiões, ou até mesmo lhe dar um nome diferente, é também o mesmo de cristãos de todas as facções e de muçulmanos. Deveriam regozijar-se, mas paradoxalmente, a raiva babilônica e romana parece ter-se estendido alem fronteiras e avassalado o mundo religioso. Embora o reino setentrional fosse o maior e mais poderoso, é do reino de Judá que se sabe o que sabemos a respeito de Yaweh. Uns, tal como no livro do Êxodo, dizem que Yaweh foi um deus midianita introduzido na terra de Canaã por hebreus originários do Egito. Outros, talvez com mais propriedade ou indícios, como um deus do panteão menor do povo cananeu. Assim, Yaweh seria filho de El, que chegou a ser o deus dos hebreus, porém irmão de Ba’al. El era tanto deus dos hebreus quanto dos cananeus. No “ciclo de Ba’al” é clara a afirmação “O nome de meu filho (de El) é Yaw” e no Deuteronômio 32.8 conta-nos como El Elyon, isto é, El, o Mais Exaltado dividiu as nações entre os filhos, Yaweh recebendo Israel como sua parte. Em particular, e analisando todas as religiões do mundo, somos levados a pensar que a existência de um Deus único é compreensível, mas que cada povo O entende de acordo com a sua idiossincrasia. Não se trata de vários deuses diferentes, mas do mesmo Deus, interpretado e entendido de diferentes formas.

É aqui que reside a resistência e a discordância milenar entre hebreus e palestinos ou cananeus. Este é o grande pomo de discórdia entre os dois povos: A religião e a origem distinta dos povos que deram origem a filisteus ou cananeus, e hebreus. Uma luta fratricida de irmãos que têm e sempre tiveram um Pai comum: El, do qual se originaram Yaweh e Ba’al. A luta é entre irmãos, tal como Esaú e Jacó. Podemos perguntar-nos se Esaú não representará o povo filisteu, ou cananeu, ou palestino (dá no mesmo) e Jacó o povo hebreu segundo a tradição falada e posteriormente coligida num livro religioso. As lutas entre o reino de Israel e de Judá, fratricidas por certo, podem ter uma explicação e de certa forma dar um novo sentido às atuais dissidências entre palestinos e israelitas: O território do norte de Israel teria sido ocupado por povos hebreus e o do sul pelos filisteus: O primeiro colonizado por povos provenientes da suméria ou do Egito (ou da suméria que foram para o Egito e depois ocuparam Canaã) e o segundo por povos de origem da ilha de Creta ou Micenas.  Mas nem importa... As diferenças genéticas à luz do ADN (ou DNA) tornam as diferenças raciais tão irrelevantes, que somente outros fatores de somenos importância poderiam determinar algum tipo também irrelevante de diferença entre judeus e palestinos ou qualquer outro povo deste planeta. O que parece diferenciar é a idiossincrasia cultivada ao longo de milhares de anos, formada a partir da religião e da economia.
Se olharmos os conflitos israelo-árabe e israelo-palestinos à luz da história, com isenção, somos infalivelmente levados a concluir que se trata de um conflito de “teimosia” milenar de não aceitação idiossincrática implacável. É tempo - porque é absolutamente necessário – de se reunirem as partes e de chegarem a um consenso no sentido do bem estar comum. O mundo agradeceria imensamente pela paz, e a imagem de palestinos, árabes e judeus ficaria enormemente engrandecida perante os povos da terra.

Rui Rodrigues

DRAGA - Marlene Caminhoto


DRAGA
Marlene Caminhoto

E tal qual uma draga a retirar-me do peito
Os entulhos as tristezas e o lixo que removeu
Fui desnudando emoções neste meu leito
E tua figura que se delineou me comoveu
Mas o que me atraía era uma meada
De onde meu corpo sedento se envolveu
Num fio que um passado contornava
E nele esse homem aos poucos habitava
Mas o passado encantado vivido
Substituiu o desencanto do presente
E a ausência do sentido e do alento
E nessa gravidez de desejos que não mente
Foram paridos a vontade e o intento
Que nos dariam o necessário alimento
E como homem então eu passei a te ver
E como tua mulher quis infinitamente ser
E como homem eu então passei a te querer
Pouco importando se há porta ou travessão
Pouco importando com o tempo dessa atração
Despi-me do pudor e expus lhe a alma nua
E se teu desejo caminhar de encontro ao meu
Eu serei infinitamente só tua
E tu serás infinitamente só meu...

domingo, 3 de fevereiro de 2013

BENDITO FRUTO


BENDITO FRUTO

Marlene Caminhoto Nassa


O teu gozo quente,

Bendito fruto

Ejetado dentro do meu ventre,

Escorreu suavemente

Benzendo-me com ele,

Santificando o meu corpo,

Que agora virou oferenda,

Em meio aos lençóis de renda.

Tomastes e comestes,

Este era meu fluido, que foi derramado assim,

Louvando e lavando esse teu gozo

Com outro gozo que saia de dentro de mim...