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segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Crônicas do Pontal do Peró, 10 ago 15.


Eram umas dez e meia da manhã quando interrompi a limpeza do remanso do lar e decidi ir a Cabo Frio para repor umas faltas e tirar uma merrequinha do Banco só para não ficar usando meu dinheiro para emprestar a 400 por cento ao mês e me dar só meio por cento de “lucros” na poupança que, considerando a inflação, me representa um rombo, um desperdício, um déficit, uma gozação, uma hilariedade fenomenal. Ia tirar uma merrequinha, tirei uma merrequeta que é um pouco maior. Não tirei mais, um marrecão, por que não sou pato tanto assim. Não tenho marrecão em banco. Nem adianta me assaltar. É uma perda de tempo.  
Fui de táxi.
Assim de supetão, vidros fume, que não quero dar bandeira, ninguém precisa saber que não estou em casa. Se souberem, quando voltar não encontro nem as paredes. Desta vez passei primeiro na loja de um casal de chineses que me querem ensinar mandarim em troca de lhes ensinar português. São muito simpáticos e os dois têm aquele “espírito” bem brasileiro, riem, contam piadas, evidentemente trocando os erres, mas isso não importa. O que importa é o pastel de queijo. O pastel deles não é pastel de vento com cheiro de queijo, mas um pastel de meio vento e a outra metade queijo. Vale a pena. O caldo de cana é sempre de cana esmagada ali mesmo. O resto das bebidas que vendem não as garanto. Podem ser de qualquer coisa com muita água e cheiro de qualquer coisa. Como não sei a data de vencimento dos ingredientes, e supermercados tentam desfazer-se sempre desses que vencem, não como os maravilhosos quibes, os quibebes, as tortas, as pizzas que estão na vitrine com saudável aspecto de moça dadivosa. Acho que vou topar esse negócio de aprender mandarim só pra ficar moderno e poder aplicar-me na cultura chinesa com todas as minhas “ÐÙÝfurada”  que pouco mais passam de cinco reais.

Depois do banco fui numa loja onde comprei duas telas de algodão para pintar, dei uma passada na casa de uma amiga e dali ao supermercado. Na volta o motorista do táxi era outro. Há motoristas calados e motoristas que falam. Prefiro os que falam. Havia uma motorista que eu gostava muito, mas ela foi para Macaé, depois para Campos e agora não sei por onde anda. Essa que era legal. É casada, conheço o marido, e tem dois filhos. Um barato. Ríamos muito ás minhas custas, porque nunca deixei de lhe pagar as viagens, e se um dia eu vier a ter motorista particular ela será a primeira a ser convidada, coisa de que duvido porque a situação do país é catastrófica e eu já não faço parte de mercado de trabalho. 



Na volta do supermercado, viemos conversando. Sempre me sento ao lado do motorista para que saiba que não sou “diferente”. Sou pop. Sou igual. Sou companheiro do motorista. A conversa fica mais agradável, acaba aquela coisa do senhor lá atrás, o lugar do motorista é na frente. Ele acha que no governo os políticos estão todos unidos como unha na carne, atrás de grana, e que por isso Dilma não cai. O tempo todo conversamos sobre isso, cerca de meia hora, porque tive que passar no Jardim Esperança, mas de lá para cá, mudamos de assunto. Foi no trevo logo na entrada do loteamento onde vivo, que lhe disse:


- Cara... Aqui mesmo nesta esquina, o ônibus costumava parar e um dia saltei e o que vejo no chão misturado com a grama verde á margem da pista? Um saco cheio de limões... Peguei, porque não havia ninguém na parada. Mas sou daqueles que andam com os olhos no chão. Já achei muita coisa...
- Eu também... Mas achou mais alguma coisa?
- Um dia em Lisboa, ao entrar na porta da rua do edifício onde trabalhava encontrei um cordão grosso de ouro enrolado num suporte de mão daqueles para empurrar a porta. Levei para o escritório e guardado, foi comunicado que se tinha encontrado um objeto de ouro. Se alguém tivesse perdido algum que o descrevesse ficaria com ele. Alguns do escritório tinham perdido objetos de ouro, mas ninguém descreveu o que eu tinha encontrado e me foi devolvido...Mas encontrei muitas coisas mais, algumas também de ouro perdidas na rua...
- Pois você não vai acreditar... Um dia vinha pela estrada que leva até Araruama, e vejo um peixe grande sobre a linha amarela que divide as pistas. Diminui um pouco a velocidade e deu para ver claramente que era uma anchova enorme, aí dos seus quatro quilos. Diminui um pouco a velocidade, mas vinha um cara atrás de mim, que pelo espelho vi que também diminuiu a velocidade. Pensei que ele ia apanhar o peixe mas seguiu. Não encostou.
- E você não apanhou o peixe?
- Não... Já estava longe, tinha que dar a volta arriscando a não o encontrar mais. Alguém o perdeu, talvez de algum carregamento de peixe, caído de um carro, alguma esposa briguenta que o jogou no marido que dirigia e caiu na estrada...

Então lhe contei dos dois pescadores que encontrei na praia do Pontal do Peró, com tarrafas, e que a meio do caminho encontrei uma tainha de uns três quilos se debatendo na areia. Ainda dei uma gozada nos pescadores dizendo que eu pescava sem tarrafa. Eles que me disseram que não é incomum as tainhas virem com a onda, serem jogadas na praia, o mar recuar e ficarem por ali morrendo. Meu amigo motorista me deu uma dica muito boa. Quando a corrente de Humboldt que passa por aqui, chega um pouco mais perto das águas mais quentes da beira da praia, que até meros sentem o choque térmico e podem até ficar se debatendo na água morna até morrerem.


Aprendi a conversar com motoristas de táxi com meu tio Adolfo em Lisboa, sem me importar se eram negros, brancos, homens, mulheres, ou o que quer que fossem. O importante é conviver, nos comunicarmos, trocar informações, aproveitar o tempo. Um de meus motoristas, esse com quem tive o prazer de viajar hoje, é negrinho. Eu sou branquela, mas nenhum de nós teve culpa ou virtude nisso. Ele ganha muito mais do que eu. Que continue assim, que seja abençoado por esta natureza que nos deveria unir. Também tem dois filhos. Quer um táxi porreta em Cabo Frio? Chame 22- 99967-6950 e fale com o Anselmo.

® Rui Rodrigues.





[1] Pataca-furada. Antiga moeda da região que não valia nada. 

Prefere assistir filmes legendados ou dublados?


Filmes legendados obrigam você a ler e tem que ser muito rápido senão perde a meada do filme. É uma vantagem que pode ajudar muito para as provas do Enem, competir para o Fies. Sabia que se você passar na prova e até para o Enem, é porque teve mais competência que os outros que não conseguiram passar? Mesmo sendo de origem índia, negra, branca, oriental, eslava, watusi, quíchua, ou esquimó? E isso nem faz de você um racista ou um burguês. 

Por outro lado tem a vantagem de poder escutar o timbre de voz de grandes artistas. Quem dubla nem sempre tem a veia artística suficiente para dar a “entonação” de acordo com a situação e fica aquela coisa lida, corrida, que até parece ter sido posta lá no estúdio, de propósito, para satisfazer algum pedido de grandalhão petista. Pior ainda quando têm o sotaque paulista carregado sem que o filme seja passado em São Paulo. Nestes casos fica a impressão que o personagem é paulista emigrado para o local das filmagens.

Filmes dublados tiram de você a possibilidade de testar a tradução das legendas (acredita que há filmes dublados com legenda?). Sempre há furos nas traduções. Por economia são feitas por uma só pessoa. Traduções teriam que ser feitas sempre por uma dupla que não se agredisse um ao outro: Uma que falasse a língua dos personagens da película, e um do lugar onde vai ser passada. Reduziria as dúvidas e a tradução seria perfeita. Seriam raros os casos de brigas entre tradutores juramentados. Sim. Teriam que ser juramentados porque esses é que entendem de traduções. Mesmo quando o filme for russo para ser rodado nos EUA, ou iraniano para passar em Jerusalém.

Você sabe como é “falar búlgaro”? Aposto que não. É uma língua tão rara, que alguns remanescentes do comunismo poderiam achar que passar filmes búlgaros seria de um requinte “bulgarês” – burguês para filmes búlgaros em particular - inaceitável. Bulgarês é um termo moderno criado aqui só a título de ilustração, que é como se fosse uma metáfora que é uma imagem, segundo uma célebre metáfora do presidencialismo tupiniquim cujos pais nunca a conseguiram ensinar direito a falar búlgaro. A primeira vez que visitou a Bulgária, essa célebre metáfora tupiniquim, quase que foi parar na Bósnia-Herzegovina porque dispensou a tradutora e achou que o vôo deveria ser para Sarajevo. Sófia (capital da Bulgária) para ela não existe, deve dizer-se “sofisma”, ou então é o nome de uma mulher com assento que não existe. Assento com dois esses mesmo.

Filmes com legendas permitem que se treine o falar, e entendimento da língua inglesa, por exemplo. Basta tampar com um anteparo as legendas e ficar escutando o que dizem. Também poderia, num processo semelhante treinar seu inglês em filmes dublados usando o controle remoto: Escuta o que dizem, dá um pause no filme, e num caderno de notas vai anotando a tradução. Depois aluga o mesmo filme com legendas e compara. Este processo, porém, é tão complicado e chato que ninguém usa.

Pretendem lançar um filme sobre essa metáfora presidencial chamado “Coração Valente”, só porque a tal da metáfora é uma mulher e o herói do verdadeiro filme é um escocês que usava Kilt, que parece muito com uma saia, mas é pra homem. Para que se veja como são os arremedos de películas Stalinistas que promoviam a imagem do líder, assim como agora são na Coréia do Norte, a tal da metáfora não usa kilt, nem saia. Usa calças. Também a guerra do filme original era pela independência, e a daqui, a ser pela independência, também, a heroína teria que passar seus últimos momentos numa forca esperneando de calças, porque de saias seria um filme pornográfico com requintes maquiavélicos. E não é assim que morre o herói do filme original sobre a Escócia.

Estudantes pagam meia, tapas devem ser com luvas de pelica (só para povo gay) e votante da milícia sempre paga, mas com dinheiro doado pelo partido segundo as regras da casa, que é sempre haver uma “claque” para quando a metáfora estiver presente. Nada de pipoca. Só bandeirolas, coca-cola inventada pelos americanos, e mortaleca que não se sabe quem inventou, porque tem muita polpa de jornal á mistura. Quem faz claque não trabalha, e com a falta de trabalho atual, há riscos de cada vez haver mais claques com cada vez menos coca-cola e menos mortadela, porque não há dinheiro para tudo. De saco cheio de tanto ganharem só coca-cola com mortadela enquanto os empresários de seus partidos ganham bilhões, assim mole-mole, só no papo, as hostes dos claques está diminuindo a olhos vistos. Afinal, eles lutam pela divisão do capital: Uns trabalham como animais sendo até mal pagos, e teriam que dividir seus ganhos com os outros: Os que não podem (e deveria ser justa a divisão) e os que não querem trabalhar (aqui o bicho pega e morde).

Já tentaram traduzir: “Shit not always sink, it floats. Flush is needed”. São capazes de traduzir por “ Folhas nem sempre pensam. Precisa acender um flash”. No fundo e muitas vezes, uma espécie de censura velada, ou promoção adúltera ou adulterada que para os efeitos dá no mesmo.

® Rui Rodrigues

  



terça-feira, 4 de agosto de 2015

Trem Extra Noturno


Não é necessário tomar drogas nem beber demasiado para se “viajar” na imaginação. Basta deixar-se levar pelos pensamentos sem censura alguma (ou muito pouca) com um tema na cabeça – que é o do título - e desbloquear a mente [1]. Lá vamos...Viagem comigo no tempo e na imaginação. Será um prazer.

1.  Numa estação de trem.


Passa da meia-noite. Ouço sons de patas de cavalos, relinchos, sons de metais, como que de uma brigada de cavalaria apressada, em carga, que se aproxima da estação. O tropel estanca como que de repente, justo na hora em que escuto o silvo penetrante, agudo, como que de uma locomotiva a vapor. Sim, é uma locomotiva a vapor, verde escura, com marcas da companhia douradas e bem polidas em relevo. As roupas das pessoas que estão na estação são estranhas. Não eram para serem assim. Aparentam ser do início do século 20, talvez por volta de 1910. Ainda não tenho certeza. As mulheres usam vestidos escuros de cintura marcada, a bunda arrebitada, chapéus com enfeites, os homens alguns com chapéus de coco outros com cartolas ou chapéus de abas, sapatos brilhantes, pontudos, e usam bengalas. Estão atônitos, olhares voltados para a entrada da estação de onde chegam os sons do tropel. Algumas pessoas começam a correr para procurar abrigo.


Uma coruja pequena, talvez habitante daquele lugar, agora perdida no meio da confusão, passava esvoaçante de um lado para o outro do trem. No ultimo instante um homem vestido com uma capa preta carrega uma mulher no ombro, com uma mão e com a outra segura o balaústre de uma das portas do trem ainda não fechada e pula para o primeiro degrau. Parece que ambos vão cair, mas consegue segurar-se. A mulher parece desmaiada.
Não demorou mais de um minuto toda esta cena, até que o trem, jogando vapores de fumaça pelos lados e pela chaminé, se afasta completamente. Tudo a preto e branco, menos a mulher e o homem que conseguiram entrar no trem no ultimo minuto. Julgo ter visto a coruja esvoaçante entrar também pela porta ainda aberta. Então Os cavaleiros invadem as gares de piso escorregadio. Ouvem-se tiros. Alguns cavalos tombam arrastando os cavaleiros. Há corpos inertes no chão e sangue escorregadio pelas gares. A cena é de completa devastação.Não estou na estação e nem sei onde estou.

2.  Para onde vai o trem nem todos vão.


A bordo do trem os passageiros murmuravam. Ninguém sabia o que tinha acontecido na estação. Alguns levantavam hipóteses. Seria uma revolução, um bando de criminosos perseguidos pela polícia. Nenhum deles tinha ouvido os tiros ou visto o que se passara. O barulho do trem e os apitos na saída, tocados a todo o vapor na força de largada para impelir velocidade, não o tinham permitido. Além do mais, por causa da fumaça as janelas estavam fechadas. O ambiente era tétrico, reinava um clima de preocupação encerrado num trem fechado com estofados de couro escuro. Um senhor sentado na penúltima fila, bem apessoado a julgar por suas roupas, comentou que no dia seguinte leriam nos jornais e não deveria ser nada de importante, que o importante mesmo é que cada um estava a caminho de seus destinos. E certamente para aliviar o clima, começou a perguntar aos que estavam nas poltronas mais cerca, para onde iam. Uma senhora ia para Paris, um casal para Berlim. Voltou-se para trás para perguntar a um casal, mas interrompeu a pergunta, e fez outra: - Há algum médico neste vagão? Esta jovem está ferida. O companheiro também estava, de raspão na cabeça. Havia uma mancha de sangue no abdômen da moça. Vi quando um médico se acercou e começou a tratar-lhes as feridas. Segundo disseram, tinham estado hospedados no Hotel Bristol em Pyatigorsk e estavam de partida para Calais onde apanhariam um ferryboat para Dover na Inglaterra, quando já á porta da estação tinham sido atingidos pelos cavalarianos. 




Largaram a bagagem, duas maletas, e correram para o trem. Não podiam perder aquela viagem. Não havia ainda cinco minutos que o trem saíra da estação.


Mas que estação? Eu não estava naquele trem, nem sabia onde ficava nem porque a chacina acontecera, mas a julgar pelo destino dos passageiros, seria para trás, na direção de Berlim, da Polônia, ou quem sabe, Itália, da Grécia. Talvez até de Istambul, Moscou ou ainda mais longe, Pequim. Mas de Pequim não. Os rostos não eram orientais, e a estação era do tipo art-nouveau. Talvez não fosse. Temos a tendência de achar que todas as estações com cobertura em finas vigas metálicas entrançadas são art-nouveau. Quanto ao Hotel Bristol, tudo indicava que a estação ficava em alguma cidade ocidental. O que estaria errado? Como aquele homem ferido na cabeça e carregando uma moça tinha podido subir no trem segurando-se apenas com uma mão no balaústre dos dois degraus do vagão? E que coincidência da coruja entrar juntamente com eles. Estaria seguindo-os? Mas como saber, se eu não estava realmente ali?

3.  O Túnel fumarento sem fim.



As luzes dos vagões costumam acender-se quando os trens entram em túneis. Naquela oportunidade não. Permaneceram apagadas. Alguém pegou uma caixa daquelas modernas de Allumettes, riscou um palito na caixa e acendeu. No primeiro brilho, naquele lusco-fusco, tudo parecia normal, apesar da fumaça que conseguia penetrar no vagão. 


Quando o fósforo bruxuleou e se apagou, viram-se os dois olhos brilhantes da coruja que descansava sobre uma pata, no encosto da ultima poltrona.
Depois foi aquele brilho intenso, e numa fração de segundo o som arrasador e o calor. Todos devem ter ficado carbonizados. Logo a luz sumiu. O trem não parou. Tinha uma grande inércia e continuou se movimentando por uns bons duzentos metros até parar resfolegando. Tinha chegado ao final do túnel e a luz então invadiu o vagão. Havia pedaços de corpos por todos os lados, sangue estorricado, o trem ainda ardia, um olho escorregava pela janela mais perto que podia ver. Lá atrás, assustados, estava o casal incólume e uma coruja impávida que ainda olhava de um lado para o outro como que tentando entender o que se passava.
Nem meia hora se passara desde que o trem saíra da estação. E eu não sabia absolutamente nada do que se passava. Nem o motivo da explosão, nem o lugar ou nome da estação, o país, o nome das pessoas, que tropa era aquela, porque o túnel havia explodido. Nem sequer estava no trem. Porque era eu tão ignorante do que me parecia ser tão mais importante? 




Mas uma coisa eu sabia e nem sabia porque sabia: A Oktoberfest em 1910 completava 100 anos, e consumira 120.000 litros de cerveja, o que era um Record para a época. Mas eu preferia vinho e não havia uma festa dessas para o vinho. Este mundo parece feito de um monte de interrogações.Quanta coisa dele não se sabe e nem precisamos saber?

  


1.  Um casal sem uma coruja



Uma ave é como uma pipa, pandorga... Abre as asas sempre contra o vento para poder planar, suster-se no ar. Alivia-lhe os músculos. Poupa energia. Corujas não costumam planar como gaivotas porque seus hábitos são os de caçadora. Preferem usar a força da gravidade e o vento a favor, na direção do movimento, para mergulharem sobre suas presas. Pessoas são diferentes. Ora caçam, ora são caçadas. Quando caçam mostram-se fortes, inflam o peito, enrijecem os músculos. Quando caçadas, choram, adotam atitudes de presa fácil. O casal era uma presa fácil e a coruja pousara sobre uma pedra a pouca distância do casal. Estava inquieta e parecia que a qualquer momento alçaria vôo.
À volta do casal havia mais de vinte soldados. Um deles, munido de rádio de campanha rodou a manivela e pegou o fone. Comunicou: Só há um moribundo sobrevivente de nosso ataque e uma mulher que tinha sido ferida e que veio a falecer. São  gente pobre a julgar pelas roupas. Nem sombras da princesa Anastásia. Não estava neste trem.
Esperou mais uns dois segundos, desligou o radio, pegou seu  revólver e atirou no rapaz que carregara a moça para o trem na estação.

A tropa abalou dali largando a mulher á beira dos trilhos. A coruja ficou por ali por mais uns minutos. Então viu a moça abrir os olhos, levantar-se com dificuldade, olhar para se certificar que os soldados já estavam longe, e cambaleante beijou o rapaz que lhe salvara a vida e se afastou dali em direção contrária. Certamente desistira de ser princesa. Talvez até de sua identidade. A coruja e eu desaparecemos. Que importa quem eram os mortos do vagão, quem era o comandante da cavalaria que invadiu a estação, e se o hotel Bristol ainda da época da Rússia livre, antes da revolução bolchevique ainda existe? Anastásia sumiu. Desapareceu. Por um breve momento histórico,foi assunto popular porque era um mistério. O mundo gosta de mistérios mas os esquece rapidamente. É muita informação que não cabe num cérebro humano de forma instantânea. Nem no de uma pequena coruja de olhos grandes. A experiência histórica é sempre solapada pela fé e esperança de que, mesmo se sabendo que tudo é impossível, continuar tentando. É tempo perdido. A experiência dos desastres históricos é mais forte. Tudo o que se fizer para copiar o passado derrotado é arremedo.

Já não há lugar para Czares nem para comunistas. 

® Rui Rodrigues 


 [1] Para os psicólogos de plantão, a mente não está completamente desbloqueada. Ou melhor, até está, mas há um público a atender. Escolhem-se caminhos na história de uma infinidade de opções. 

sexta-feira, 31 de julho de 2015

A seara dos corvos e do Espantalho.


 

 Sempre se deram "carteiradas" neste país... Porquê?
Porque somos todos cordatos com a lei e temerosos do poder. Sempre tivemos medo do poder. Perdão... Não é bem assim... Creio que é o poder que, a bem ou a mal, nos faz temê-lo em vez de vermos no poder o amigo que nos apóia na vida, nos dá aquela mãozinha á nossa produção, nos facilita a vida. Trabalhar é o que fazemos de melhor. Oh, sim... É o que melhor sabemos fazer a bem ou a mal... A bem somos trabalhadores, empreendedores. A mal, somos escravos.

As carteiradas antigamente, a mal, quase sempre começavam com o famoso "Sabe com quem está falando?" Agora está ficando famosa a frase "Isso é sigiloso", "Isso não se investiga", e sem frases algumas que se ouçam, em surdina, condenados se mantêm no governo, indiciados continuam votando como se sobre eles não pesassem dúvidas sobre sua probidade.

Pior de tudo, se considera como presidente "representativo" da nação, quem foi eleito com apenas 30% dos votos possíveis... Isto num país de 10.000.000 de habitantes seria uma catástrofe previsível. Num país de 200.000.000, é uma catástrofe certa. A falta de representatividade gera tantas dúvidas e tanta falta de confiança, tanto desagrado que gera inflação. Poucos acreditam.


Porém, se apesar disso o "eleito" ainda mostra deficiências visíveis, hilárias, debochantes, então o que temos? Temos o descrédito total... A economia despenca, o crime avança, a roubalheira aumenta, porque ninguém se espelha em exemplos, o governo passa a fazer parte de cena mambembe de teatro, o Bobo da Côrte, a pantomima, uma Pátria Educadora com professores mal pagos, escolas fechadas e deterioradas, falta de vagas no ensino, sem viés, enem fies, enem pronatece e enem nada que preste.

Só uma carteirada do senado e outra carteirada da Câmara mantêm a incongruência no poder, assinando amalucadamente e em carteirada, os cheques que destinam verbas a tortos e a direitos...



Entregaram a seara brasileira ao cuidado dos corvos, liderados por um espantalho conivente, incoerente, laxante, invisual, surdo, e cuja voz vem do vento que sopra sempre do mesmo lado. Nem vê que as lojas de 1,99 já passaram a 99,99.
Apenas os corvos são amigos do espantalho complacente.
 

O espantalho complacente só tem como amigos os corvos que comem os milhões da seara brasileira... Não sobra milho para ninguém e os silos estão vazios... Não há entidade contrária. Todo o povo reclama, de A a Z, mas somos como cavalos montados com gente de esporas... Se um dia já fomos Brasil, hoje não sei mais o que somos... Um amontoado sem lei, sem bom senso, perdemos a identidade, somos assistentes de peça mambembe que em vez de palmas batemos panelaços, como se isso nos redimisse de alguma coisa. Nunca tantos foram tão vilipendiados por tão poucos.
® Rui Rodrigues



Algumas frases de famosos que nunca foram escritas


Ou que nem foram ditas, mas pensadas, vá-se lá saber...Aqui no Bar do Chopp Grátis quem fala mais alto é a espuma do chopp. É na hora da morte que as verdades surgem como visão premonitória. O humor não é negro. É cervejético!

1.  Maria Antonieta instantes antes da lâmina da guilhotina descer sobre seu lindo pescoço.


·        História - Em 16 de outubro de 1763 o povo francês viu a guilhotina sendo preparada para a execução de uma rainha por traição á Pátria. Que traição? O que ela fizera? Apenas tinha gastado mais do que o necessário, apesar de rainha, o povo não tinha nem dinheiro para comprar pão, e quando foi perguntada sobre a situação, teria dito: “Diga ao povo que se não tem pão, que comam brioches”... Maria Antonieta era uma desmiolada, mais do que as outras rainhas do mundo, porque sendo rainha achava que estava acima de todas as coisas, que tinha os melhores advogados, as forças armadas de seu lado... Tudo de seu lado. Só não percebera, nem a própria França, que o país era na realidade uma democracia, e que o povo tinha que ser ouvido. O povo então partiu para a Bastilha, onde se guardavam armas e munições, invadiu, tascou fogo, e os reis caíram. Foi o inicio da Revolução Francesa. Quem estava mais perto do cadafalso conseguiu ouvir-lhe as últimas palavras.
·        As ultimas palavras – Povo burro... Comigo vocês comiam pão e de vez em quando brioches... Depois de mim não vão comer brioches e de vez em quando pão. Dilma Rucéfala vai fazer muito pior com vocês e só na conversa...O pão vai passar a dez reais o quilo...Digam à Dilma para não perder a cabeça embora duvide que tenha algum miolo dentro dela. Se tiver é de brioches. Ela gosta de passar bem e só de papel higiênico gasta oito milhões de reais. 

2.  John F. Kennedy antes de levar o terceiro tiro em Dallas.
  

·        História – O presidente tinha viajado para Houston no Texas porque as eleições seriam no ano seguinte. Ele tinha alguns inimigos, entre eles os cubanos na ilha, porque Kennedy tinha frustrado os planos russo-cubanos de instalar mísseis nucleares em Cuba. Daí o embargo. Todo mundo fala: AH... Os americanos embargaram Cuba... Mas ninguém diz qual a razão. Ninguém gosta que estrangeiros instalem foguetes com ogivas nucleares em suas fronteiras. Ele já tinha transado com a Marylin Monroe, e suspeitava de sua mulher Jaqueline com o Onassis, um armador grego cheio da grana que tinha uma frota de navios mercantes, era mulherengo, e dava mole para as mulheres dele, uma delas a Maria Calas, que ao contrário do nome, não se calava e cantava pra canarinho não dormir... Berrava muito... Quando o casal chegou a Houston, e desfilou em carro aberto, conversível, e passou frente a uns armazéns a uma velocidade reduzida, ouviram-se três disparos. O terceiro é que foi fatal. Sucedeu-lhe o vice, Lindon Johnson. Dizem as línguas que este tinha interesses na morte do JFK. Não... Não é JK... Este também foi morto por um ônibus, no Brasil, mas dizem que não foi nada... Não foi nada...Políticos morrem no Brasil em helicópteros, aviões, em carros atropelados por ônibus, e até filhos de políticos, mas não é nada... Não é nada... Não é nada...
·        As ultimas palavras – Não foi o Fidel... Não foi o Johnson... Isto é gripe e vai passar... Um dia reataremos com Cuba, mas só quando o Fidel estiver caduco ou morrer. Até lá, o muro de Berlim vai cair, a URSS vai voltar a ser imperial, a China vai ser a primeira potência, e Lula com Dilma ou sem ela, vão destruir o Brasil. Esse Papa “Chico” é comunista e tem um Banco com lucros extra-oficiais... (então veio o terceiro tiro)... Jacqueline... Acertaram-me outra vez!... Compraram meus seguranças... Diz ao povo brasileiro que Lula não é comunista, é roubista...

3.   Jesus Cristo antes de desmaiar pela ultima vez.


·        Jesus Cristo deveria ser o novo Grão Sacerdote do templo de Salomão. Tinha sido educado para isso como filho da tribo de Levy, no lugar de seu primo, que esse sim tinha nascido na data certa, quando sua mãe ainda era considerada virgem de varão (não tinha tido filho homem e a prima teve primeiro). Fundou uma seita destinada a moralizar a religião que pela época visava mais os lucros com a venda de animais para imolação e decididamente cooperava com os invasores romanos. Como Cristo, Jesus era o salvador dos judeus e deveria arrasar os romanos, expulsá-los da palestina. Mas o sumo-sacerdote era muito forte e apoiado pelos romanos. Jesus foi preso, condenado e crucificado. Quando em 31 DC chegaram ao Gólgota - onde ele foi sacrificado - ele a mãe e Maria Madalena, já os apóstolos tão fervorosos e seguidores do mestre se haviam escapulido para fugir da prisão e do indiciamento como cooperantes de Jesus. Nunca nenhum deles aprendeu a caminhar sobre as águas, nem a reimplantar uma perna perdida, tantos mortos inocentes e só salvavam um de vez em quando para demonstração, e mesmo assim entre a vida e a morte que nunca se sabe, alguns “ressuscitam”, mas a medicina estava ainda muito atrasada. Um soldado molhou uma esponja do mar vermelho em vinagre, deu-lhe uma lançada abaixo da costela e molhou os lábios de Jesus para o sangue ficar mais fino e escorrer mais depressa. Horrorizado, Jesus disse ou poderia ter dito.  
·        As ultimas palavras – És um legionário tonto, idiota... Não vais mudar nada neste mundo. Nem tu nem eu. O mundo continuará a matar-se, porque acima da vontade dos seres humanos está a sua condição intrínseca de “espécie” que tem as suas próprias características de sobrevivência, uns mais inteligentes que outros. O mundo não nos esquecerá é certo, tu pelo que me fizeste, e eu pelo que lhes fiz, mas não mudaremos nada neste mundo. Minha seita crescerá. Entre eles farão comercio preferencialmente e trocarão favores uns entre os outros, mas eles mesmos nada mudarão. Para combater os que se julga serem os maus não se pode ser bom. Há que se ser mau também, senão os bons acabam de vez e só sobram os maus. A fé não move montanhas... O que a fé faz é imaginar que as montanhas não existem. Meus discípulos fujões não entenderam nada do que lhes ensinei. Provavelmente vão usar a minha fama para se fazerem na vida, ganharem a fama deles, viver ás vossas custas. Em verdade te digo, que tu serás um desses. Ainda te vais converter, safado! Digam à Dilma para não ir visitar o Papa toda emperiquitada e de lábios pintados que o Papa não gosta de mulher nem de boquete...  

Escrito sob inspiração divina. Assim dizem os clientes do “Bar do Chopp Grátis”. Eles comentaram: “Divino!”

® Rui Rodrigues

      

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Mais do que duas viagens no tempo


Não há ninguém neste mundo que possa dizer que não respeitei os idosos e que não os ouvi, sempre, atentamente. Aprendi muito com eles, hoje sou idoso também.
 

Um dia peguei o possante Renault Clio 1.0, “vermelhão francês cansado”, mais que suficiente para as estradas portuguesas, e pus-me a caminho, com minha família, desde Lisboa até o Algarve. Abalamos da Quinta do Junqueiro onde vivíamos, até Armação de Pêra onde ainda vivem meus tios (amados) Miguel e Nilde.
 
Lembro que pelo caminho ainda dissertávamos sobre aqueles casos de pessoas que pegavam carona e eram encontradas abandonadas à beira da estrada, ainda desacordadas, depois de terem passado por cirurgias que lhes tinham extirpado um rim, parte do fígado, ou um pulmão, para serem vendidos no mercado negro das “doações” de órgãos. Muita fantasia, em que as vítimas eram anestesiadas por “boas noites cinderelas” ou com clorofórmio durante as caronas. Por aquela época eu andava pelos 45 anos e meus tios pelos sessenta.
 
Quando chegamos a Armação de Pêra vimos uma vila simpática, bem algarvia, casas na maioria brancas com aconchegantes chaminés típicas, e lá estava, numa esquina com alto muro, de frente para uma plantação de amendoeiras ainda não em flor, a casa de meus tios, com pomar, vinha, horta e até um mamoeiro protegido por plástico para combater o frio, para ver se vingava e dava frutos. Uma vez brasileiro, é como vício... Gruda no corpo, na alma. Creio que se todos os europeus pudessem ou se arriscassem, morariam aqui no Brasil. O problema são as políticas e os políticos que estragam a beleza da terra. Por lá também, mas parece que são mais comedidos, ou têm mais medo das leis.

Ficamos lá num final de semana mais extenso, não me lembro se sábado domingo e segunda, ou sexta sábado e domingo. Pois por incrível que pareça, ainda aprendi com eles várias coisas.

O que mais nos interessa a nós, aqui no Brasil, que convivemos com uma inflação galopante, foi a arca que compraram. Arca é aquele freezer horizontal, enorme. Estava cheio... Aliás, creio que nunca se esvazia. É uma lição de economia doméstica. Sempre que saem a passeio pelos supermercados, ou por granjas, e vêem produtos com preço “bom” e sabem que precisam repor estoques, compram. Tática que faz parte da batalha contra a inflação. Mas não era só desse modo que economizavam enquanto se divertiam.

 
O vizinho em frente, quando colhia as amêndoas, dessas que se compram pelo natal, não colhia todas porque nem todas estavam maduras, e não contrataria ninguém para recolher os restos porque não valiam a pena. Para meus tios sim, e com permissão do vizinho, lá catavam uns bons baldes de amêndoas... E com outros vizinhos, cachos de uvas remanescentes para fazer vinho, azeitonas para fazer conservas e azeite... Bebi vinho do “Miguel & Nilde”, azeite da mesma “marca”, ambos excelentes, amêndoas torradas como aperitivo, que não eram apenas as amêndoas. Eram deliciosas as alcachofras colhidas a monte. 


Meus tios nascidos no Norte e a meio caminho entre Algarve e Norte (ela é brasileira de Coimbra), são e sempre foram o meu aperitivo para as coisas boas da vida, um belo exemplo de companheirismo. Mas tenho minhas imperfeições, ou não, e não aprendi tudo. Claro! Sei muito de sua vida, mas não sou eles, nem sei tudo nem tenho que saber. Armação de Pêra tem praia, pescadores, redes, o clima não é tão frio, uma casa, uma família, vinho às refeições, uns passeios a pé, calor humano até no inverno, lembranças quase seculares. Muita coisa mudou lá fora. Dentro da casa, quase nada. Só uma adaptação aos tempos e á idade.
 
Aprendi muito com eles. Dou-lhes minha gratidão e lhes agradeço boa parte dos meus prazeres da vida. A felicidade não é coisa simples, mas não tem nada de complicada. Basta ficarmos felizes conosco mesmos, se nossa moral não nos condena. E muitas vezes nossos "pais", nossos maiores exemplos, nem são os pais, mas os tios, os avós, os primos, e até casais de amigos... E fico imensamente grato a Fornelos onde eu, meu pai, minha tia Elisa e meu tio nascemos. Obrigado, Brasil, e Rio Grande do Sul, Brasil inteiro, que tão bem, mas tão bem me acolheste e à minha família. 




® Rui Rodrigues.