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segunda-feira, 30 de julho de 2012

O pequeno grilo




O pequeno grilo

Ele era um velho. Vestia-se com roupas puídas, mas limpas, que já tinham sido moda, roupa de etiqueta, décadas atrás. Era tudo o que tinha, além de dois colchões onde dormiam ele e o garoto. Sem ter onde morar resolvera recolher-se àquela pequena gruta nas imediações da cidade. Todos os dias ia até ao bairro mais próximo para recolher comida e alguns restos de coisas que pessoas caridosas lhe davam por não lhes fazerem a mínima falta. O garoto era fruto de amores de ocasião, daqueles que nada têm de amor, e são apenas reflexos da função hormonal que provoca desejos incontidos. Tinha sido largado à porta da gruta sete anos antes. Entendeu que era um presente que a vida lhe dera e não queria perdê-lo. Virou-se do avesso para conseguir fraldas, leite, mamadeiras, roupas. Inventou que era pra uma mãe pobre que não podia sair de onde estava para cuidar do filho. Tinha planos: Se a vida lhe dera aquela criança, não iria tirá-la. A criança nunca ficaria doente.  Se viesse a ficar, então contaria a verdade, perdê-la-ia para sempre porque seria entregue a alguma instituição para que viesse a ser adotada, mas teria a sua vida assegurada. Ficaria com o Grilo, assim lhe chamou, enquanto a vida lhe permitisse tal dádiva.

O pequeno grilo, aos três anos já era um excelente perguntador. Gozava de excelente saúde. O velho ensinava-lhe tudo o que sabia. Ninguém se preocupa com os miseráveis que vê pelo caminho. Tratam-nos como se fossem idiotas e não tivessem o mínimo conhecimento. Na verdade estudos mostram que entre os mendigos de rua encontram-se professores universitários, engenheiros, médicos, de ambos os sexos, que se viram forçados a adotar essa vida das ruas ou que pararam de lutar pela vida que tinham por que parou de fazer-lhes sentido.

O velho dera o nome de grilo ao pequeno porque se lembrava sempre de um filme de Bruce Lee que vira naqueles tempos em que tinha família. Era o de um sábio de Kung-fu que tratava o discípulo por “pequeno gafanhoto”. Naquela gruta não havia gafanhotos mas havia um grilo que cantava todos os dias, e de karatê o velho ainda sabia alguns golpes. Faltava-lhe a força, mas ainda tinha o jeito.

Sete anos passam depressa. O pequeno grilo sabia ler, escrever, e tinha tanto conhecimento que poderia tranqüilamente, com aquela idade, fazer prova em colégio para concluir o primeiro grau. Aprendera também a cozinhar, lavar e passar sua roupa. Numa manhã o velho acordou-o e disse-lhe que iam até o centro da cidade. Vestiram a melhor roupa, o velho apanhou umas notas que sempre tinha guardadas e foram até a cidade. Foram a pé. Um longo caminho. Quando chegaram a uma rua, o velho disse-lhe que haviam chegado e entraram numa loja que cheirava a papel velho. Era um Sebo. Passaram quase uma hora escolhendo livros. Depois voltaram exaustos para a gruta nos subúrbios da cidade. O velho ia preparar o pequeno grilo para o segundo grau até os dez ou doze anos de idade. As aulas recomeçaram no dia seguinte. O pequeno Grilo seguiria as ciências exatas e saberia ler, falar e escrever muito bem o português. Brincava nas horas vagas, muito poucas por sinal, com outros meninos de uma favela próxima. O pequeno Grilo já sabia que seu futuro seria muito diferente e junto com o velho lutavam por ele. Era uma fixação. Uma meta a atingir e nada mais serviria.

O pequeno Grilo passou em todos os exames e fez vestibular para uma universidade de Física. Passou e ganhou uma bolsa de estudos. Um dia ao voltar para a gruta não encontrou o velho a quem chamava pai. Procurou-o por todas as instituições. Já estava formado quando veio a saber que ele jazia numa vala comum, enterrado como indigente. Nesse dia seu coração ficou apertado como nunca. Seu pai, assim lhe chamava, partira sem dizer adeus. Por momentos, em que as lágrimas lhe rolaram pelas faces, chegou a pensar que era uma história muito triste, mas logo seu coração se inflou cheio de orgulho. Afinal sua história e do velho, eram uma linda história da qual nada tinha que se envergonhar.

Grilo hoje é casado, tem dois filhos e vive numa pequena cidade alemã onde desenvolve os seus estudos num centro de pesquisa. Ajuda a manter um centro de ajuda a desamparados na cidade de S. Paulo

Rui Rodrigues. 

sábado, 28 de julho de 2012

A crise econômica mundial e as “mudanças” políticas




A crise econômica mundial e as “mudanças” políticas

Nada mais efetivo para mudar o panorama político do que uma violenta crise econômica internacional (ou interna a cada país). Foi assim com a Revolução francesa quando faltou pão ao povo, foi assim com a revolução russa de 1917 quando o povo não tinha o que comer. Se buscarmos na história, veremos que a maioria das guerras foram declaradas por falta de recursos, comida ou para os declarantes serem mais ricos ou mais poderosos.

Nada mudou de essencial na humanidade: Ela fala pelo estômago!

Há sinais de inconformidade com os governos na Argentina, no Brasil, em Cuba, o Norte de África já praticamente resolveu os seus problemas, governos caíram na Grécia, em Portugal, na Espanha, na Itália, no reino Unido e na China acaba de descobrir-se que um grande dirigente enviava dinheiro para contas secretas no exterior. Isto não é o meio ou o fim da crise, mas apenas o seu desenrolar. Antes de 2020 não terminará porque a crise caminha “devagar” como costuma acontecer nas grandes crises. Não poderíamos imaginar que em quatro anos desde o começo da crise em 2008, a Espanha viesse a ser atingida tão severamente que 25% da população viesse a estar desempregada e houvesse filas imensas de pessoas sendo assistidas pela Cruz Vermelha Internacional com parcas doses de alimentos. Nos EUA há cada vez mais pobres sendo assistidos por organizações de caridade.

Em todo o mundo, voltarão as filas de racionamento!

Sabemos o que nos espera no Brasil: diminuição dos salários, desemprego, mas sem cortes nos salários dos senadores, governadores, deputados, vereadores... Esses continuarão a entregar o nosso ouro para os bandidos acobertados por uma constituição que lhes permite fazer dela o que desejarem, e alterá-la a cada vontade dos que mandam nesta nação: aqueles que pagam as eleições dos candidatos dos Partidos.

Enquanto os cidadãos deste país não forem para as ruas exigir nova constituição que possam votar item por item, continuaremos assistindo à deterioração do sistema político – independentemente de Partido – como num jogo de futebol. Explico! Quando o Santos perde, somente a torcida do Santos fica triste. O restante dos adeptos do futebol continua sua vida. O mesmo se aplica para cada clube perdedor ou Partido que perde as eleições. Mas há sempre a esperança de vencer amanhã.

Com a crise, todos perdemos, e por falta de ética e moral, os Partidos vão perdendo a sua credibilidade de nos empurrarem candidatos nos quais temos que obrigatoriamente votar.

De absurdo em absurdo se constrói a derrocada dos reinos, onde sempre há algo de podre, e, de barriga vazia, nem comida podre desce!
Não votarei em ninguém. Todos os partidos têm apenas um interesse: o interesse de seu time e não dos “torcedores” que vão ao estádio. Estes, somos nós, os cidadãos: pagamos entrada e não vemos saída! Ademais  a  história não mente.. Fiquemos sem trabalho e com fome.. 
Quando somos apenas uma pequena parte, vamos para debaixo da ponte. Quando somos
muitos, fazemos revoluções..

Rui Rodrigues

MAR DO AMOR

MAR DO AMOR
Marlene Caminhoto Nassa

Foi tudo de bom
Navegar em seu mar pelo mundo
Quando havia tempo de calmaria
Nossas velas você recolhia
E lançava a âncora bem fundo

Ancorados em mar alto
Nada podia nos atrapalhar
Sentindo a brisa macia
No nosso corpo a tocar

Balançando nas suas águas
Às vezes conseguia até mergulhar
Catava as estrelas marinhas
E você me dava as do luar

Comíamos as estrelas da água
E com as do céu
Alimentávamos nosso sonhar

Mas o tempo de calmaria
Começou cedo a mudar
Soltamos as velas
Mas no meio da tempestade
Era impossível navegar

Nossa caravela água pôs se a fazer
E o mar do amor
Antes tão calmo e sereno
Ameaçava a nos arrastar
Em suas águas revoltas

E com todas as velas soltas
Ficamos perdidos nesse mar

Náufragos nesta praia deserta
Seremos presa certa
Pode crer
A não ser que desses destroços
Outra embarcação possamos fazer..
MEU NORTE  (II)
Marlene Caminhoto Nassa
Vago qual pássaro mortalmente ferido
No mar da vida sobre a onda forte...
Vaga a onda e sem encontrar vaga,
Tal e qual o meu coração dolorido
Arrebenta na rocha que lhe faz barreira
Sou pássaro ferido e em cegueira
Que vagando eu no que divago da chaga
Aberta no meu peito e que me draga
Dilacerada nas adagas disparadas sem sorte
Feliz e cega só encontro a morte
Imaginando, tola, encontrar meu norte...

SAL E MEL

SAL E MEL
Marlene Caminhoto Nassa

A delícia de dialogar com um poeta
É que só ele consegue explorar uma gruta
Esculpindo poemas de forma tão quieta
Mas criando arte até da palavra bruta
Enquanto escreve uma poesia louca

Exploda, pois, estrofes de suas águas represadas
E inunda de mel e de seu sal a minha boca!
INSTRUMENTO TEU
Marlene Caminhoto Nassa

Com a língua quente na minha gruta
A lamber o contorno dos lábios meus
Teus dedos travam uma delicada luta

Ouve se de repente, num instante,
Em forma de espasmo e de gemido meu
Um concerto doce e alucinante

Tiras notas dissonantes com tua batuta
Quando fazes do meu corpo o instrumento teu!

OUTROS OLHARES

OUTROS OLHARES
Marlene Caminhoto Nassa
Olhes-me com olhos do teu coração
Entendas-me sem nada falar
Use a compreensão de poeta
Tateando por meus sentimentos
Lendo no braile dos dedos e da emoção
Os por quês desta minha solidão
Explores-me nesse teu ato
Minucioso perfeito e exato
Com teus dedos e teu desejo de fato
Enviando do coração ao corpo meu
As provas inequívocas do desejo teu
E encontrarás escondida nos espaços,
Camuflada entre outros  traços meus
A menina que  se expõe
 Frágil e nua
aos olhos teus...

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Uma receita de ambrosia e saudades de Susana








De vez em quando me lembro de pessoas que passaram pela minha vida e de outras cujas vidas se cruzaram com a minha. De todos sempre carregamos lembranças, umas boas, outras nem tanto. Algumas só com esforço conseguimos lembrar e mesmo assim só quando nos perguntam por elas ou lhes fazem referência.

Suzana é uma das que me lembro com muito carinho. Era uma mulher como as outras, mas nenhuma mulher era como Suzana. Depois que entrou em minha vida nunca mais saiu. Até hoje!



                                                                  A vida na Campanha gaúcha




Professora primária tinha os conhecimentos básicos e o perfil psicológico para tomar conta de uma família constituída de marido e três filhos, em meio ao vento, ao calor e às geadas do Rio Grande do Sul, em plena campanha. Dava toda a atenção á enorme família que vivia entre o segundo distrito de Piratini, Pelotas e Porto Alegre. Tinha família também no Rio de Janeiro e no Estado de Alagoas - em Maceió. Na estância da Coronilha onde vivia com o marido e os filhos, cuidava também dos peões que por vezes em numero maior de quarenta invadiam a estância para cuidar do gado, da tosquia de ovelhas. Não era trabalho fácil. O progresso faz com que o trabalho se simplifique e hoje a estância não tem mais do que um ou dois empregados, quando tem. Pertence ao filho dela. Nos arquivos da enorme família havia condecorações dos Imperadores do Brasil, lembranças dos tempos dos Farrapos.

A história de Suzana poderia ser contada desde o tempo das sesmarias, quando o governo português decidiu distribuir terras para aumentar a produção através de uma lei de 1375. Com a descoberta do Brasil a partir de 1.500, essa lei entrou em vigor na nova nação. Naquela oportunidade a família de Suzana, mais particularmente através do marido, herdou cerca de 80 km de terras de ambos os lados da estrada que une a cidade de Pedro Osório a um lugar chamado Ferraria. A distribuição de heranças foi dividindo a sesmaria em estâncias de maior ou menor porte. A de Suzana e do marido, a da Coronilha, tinha cerca de 650 hectares de terra boa para pasto e cultura. A estância sede ainda existe. É a estância da Arvorezinha, onde ainda hoje se cavoucarmos nas terras ao redor ainda se poderão encontrar colheres de prata perdidas nos bons tempos. A arquitetura é imponente. Seria um longo caminho contar a sua história desde essa época. Bastam alguns aspectos de Suzana que a tornaram uma das mulheres mais humanas que conheci.



Com 19 anos tornou-se independente e saiu de casa para exercer o cargo de professora numa cidade. Foi em Torres, uma cidade balneário do Rio Grande do Sul, mas não vejo que importância teria se tivesse sido em cidade diferente, noutro Estado ou país. Casou e teve os três filhos. Viu-os crescer. Cuidou deles dividindo-se entre a fazenda e a cidade de Pelotas onde estudavam. Uma crise na pecuária fez com que as finanças da família não corressem muito bem durante alguns anos. Quando a conheci já era viúva precoce. Estava vestida com uma camisola de lã negra, uma calça de lã. Foi no                                 inverno de 1972 em Porto Alegre. Fora ao escritório para conhecer o namorado da filha.

No final do ano era costume a família se reunir na estância da arvorezinha, a estância mãe. Vinha gente de todos os lados. Fazia-se um churrasco à gaúcha, como não podia deixar de ser, com a carne espetada à volta de uma vala retangular aberta no solo. Enquanto a carne assava era espargida com ramos de salsa e coentro molhados numa bacia com sal grosso meio dissolvido. As costelas de carneiro eram famosas, a carne divina criada ao ar livre sem agrotóxicos comendo capim nativo.

A receita de ambrosia de Suzana

Na cozinha, Suzana preparava a sobremesa: Ambrosia feita com leite gordo de vaca criada com mimos e todos os cuidados. Usou para cada litro de leite, 8 colheres de sopa de açúcar, dois paus de canela e quatro gemas de ovos vermelhos, grandes, de boas galinhas poedeiras. Para preparar, levou a fogo brando em panela larga, o leite, o açúcar e a canela até chegar ao “ponto de fio”. Enquanto isso bateu as gemas até ficarem consistentes. Juntou à panela e continuou o aquecimento por cerca de cinco minutos mais sem mexer, soltando as gemas das laterais da panela. Ao fim dos cinco minutos virou a massa com uma escumadeira e fez um furo bem no centro da massa. Conforme o leite ia subindo, mexia com muita delicadeza até a massa adquirir a consistência de doce de leite mole. A partir deste ponto, deixou cozinhar por mais cerca de 15 minutos. A ambrosia estava pronta e o churrasco começava a ser servido.

Filhos casados

Sabia dosar as visitas aos três filhos, amava os netos e além das boas conversas, havia sempre um espírito da concórdia pairando nos lares. Dava razão a quem, no seu entender, a tinha, independente de graus de parentesco. Foi um prazer vê-la viajar para a Colômbia onde passou meses em companhia da filha e dos netos, e dali para Miami para se divertirem na Disney. Sua receita de “ambrosia”, um doce feito à base de leite, era sempre recebido com sucesso como uma de suas sobremesas prediletas. Logo depois de conhecê-la em POA, fui convidado para um almoço em sua casa. Um prato de feijão com mocotó, rodelas de lingüiça calabresa, salsa picada por cima, um arroz branco e um bom vinho. Suzana sabia cozinhar, e tal como o pai das crianças conversava com elas. Não tinha respostas do tipo “é assim porque eu quero” ou “é assim porque é assim”. Tudo tinha uma explicação e deveria ser debatido. Suzana sempre foi uma pessoa que era um prazer ter sempre em casa. Passou bons dias comigo em Minas Gerais, no Rio de Janeiro, em S. Paulo, Barranquilla na Colômbia, mas foi impossível convidá-la para conhecer Portugal e o Chile.

Era uma mulher de argumentos, e os tinha fortes, porém não era das que buscavam e rebuscavam argumentos para ter razão. Sabia perfeitamente quando a não tinha, ou mesmo quando suas “razões” não eram tão absolutas que fossem irrepreensíveis. Mas era raro não ter razão. Sobre as “coisas” da vida, sempre a tinha. Uma mulher dessas é respeitada até pelos inimigos, se os tivesse, mas não creio que Suzana tivesse um único sequer. Construíra uma casa de madeira na praia do Laranjal com um lindo jardim de que cuidava entre idas e vindas a Porto Alegre para ver uma filha, á Estância da Coronilha para ver o filho, ao Rio de Janeiro ou no Brasil onde quer que a outra filha estivesse. Nos tempos em que passava no Rio de Janeiro dedicava a sua maior atenção aos netos. Acampava com a família naqueles bons tempos em que ainda se podia acampar na Rio Santos em confortáveis barracas. Foi lá que o neto dela aprendeu a comer e a fazer sushi com um japonês amigo do pai e que trabalhara com ele em S. Paulo.

Para Susana não havia impossíveis. Era tudo uma questão de dar um jeito ou esperar o tempo certo para ser possível. Nunca a ouvi gritar. Com ela as discussões perdiam a força, amansavam, esfumavam-se.

A memória de Susana.

A tristeza abateu-se, cheia de esperança, quando Susana recebeu a notícia de que seria melhor perder um seio, mas quando recrudesceram os sintomas, anos depois, entrou novamente em tratamento de quimioterapia, numa época em que a rejeição ao medicamento ainda não evoluíra. Fui a Pelotas onde estava internada. Sabia que ia para me despedir dela. Na verdade, mesmo em casos de minha família jamais me despedira de alguém. Meses atrás, ainda em sua casa do Laranjal, me telefonara e discutira sobre a validade de viver uma vida com qualidade ou não viver. Como confidente de algumas de suas facetas na vida, senti meu coração oprimido. Mentir-lhe de nada adiantaria. Apelar para Deus, sobre o qual ela tinha seus próprios conceitos, também não. Um dia soubemos que tinha decidido parar com a terapia, e agora eu estava em Pelotas para me despedir dela. Quando me chamaram para ir à sala da UTI onde tinha recobrado a consciência, conversamos por uns cinco minutos que me pareceram uma eternidade, o coração apertado, lágrimas irritantes, difíceis de conter, umedecendo-me os olhos, a voz traindo a minha vontade de mostrar-lhe que havia esperanças. Não se podia – nem se devia – enganar Susana. Mas mesmo assim, disse-lhe que embora ela não acreditasse em Deus como uma boa parte acreditava, deveria haver uma diferença de tratamento para as pessoas como ela. Segurei-lhe a mão esquálida por onde lhe entrava o soro. E disse-me, chamando-me pelo nome, de olhos fechados, tentando abrir-se: - Mas é muito difícil. É muito difícil.

Há um mundo de lembranças de Susana, boa esposa, boa mãe, excelente avó e por todo este mundo muita gente se lembra dela em muitos lugares. Gostaria de revê-la um dia onde certamente está.

Rui Rodrigues

Breve ensaio sobre a felicidade




Breve ensaio sobre a felicidade



Um dia ouvi dizer que não somos felizes: apenas temos momentos de felicidade e que somos mais ou menos felizes de acordo com a quantidade e a qualidade desses momentos felizes. Parece fazer sentido, mas não é pleno.

Disseram-me também que a felicidade é indiretamente proporcional ao conhecimento geral que temos, como se os imbecis fossem felizes apenas porque parecem ser ignorantes. Seria também quase que afirmar que todos os ricos são ignorantes, porque parecem sempre felizes. Pelo menos fora de casa ou entre amigos. Por esse prisma haveria quem fosse feliz apenas pela capacidade que tem de se “mostrar” feliz, mas neste caso, os mais felizes seriam os palhaços de circo. Não é o que dizem deles.

Algumas religiões dizem que a felicidade está em ir para o paraíso, mas ninguém sabe o que existe por lá e para isso teríamos que morrer primeiro. Não parece uma busca muito eficiente e adequada para buscar a felicidade de que falo: A do aqui e agora. O budismo diz que a felicidade está no nosso interior, e o catolicismo chegou a afirmar que ao nos desprendermos dos bens terrenos seriamos felizes, como se a felicidade estivesse na despreocupação dos que não têm dinheiro para se preocupar. Assim todos os pobres seriam felizes, e não é isso o que vemos. Para extremistas muçulmanos o paraíso os espera com sete virgens. Logo após serem defloradas, deixam de sê-lo e ficarão no paraíso com sete desvirginadas. Então nos perguntamos se extremistas femininas teriam no paraíso sete jovens mancebos virgens, mas se lhes perguntarmos certamente teremos uma resposta bem diferente.  

Prozac é uma das inúmeras substâncias químicas que bloqueiam enzimas em nosso cérebro que produzem sensação de desconforto, ou que produzem as enzimas que nos produzem boas sensações, as que nos trazem felicidade, e o sexo, que nos produz essas mesmas enzimas, é o assunto do momento, é a busca da felicidade do século XXI, uma forma barata de se sentir feliz, sem qualquer tipo de impostos ou taxas, sem pagar entrada. Há quem dance varias vezes por semana, e quem assista a filmes, ou fique sentado o dia inteiro em frente a um computador buscando a sua felicidade. Praia é uma forma de se adquirir felicidade praticamente grátis.

Sigmund Freud não era budista, mas descobriu que nossa felicidade aumenta quando estamos felizes com nós mesmos, e para isso temos que conhecer as razões de nossa identidade e que nos fazem ser como somos. Para isso é necessário quebrar a potência de nosso alter-ego, aquela parte de nossa identidade que nos restringe e censura o nosso ego, aquilo que realmente somos. Não raro o alter-ego é representado pelas ações de nossos pais em nossa formação de adolescentes e adultos.

Há sempre shows, exposições, degustações, festas, para as quais se pode arranjar convite. Há sempre uma nova amizade que surge de repente ou que podemos buscar. Podemos vencer a inércia que nos prende ao nada e voarmos para a felicidade de fazermos alguma coisa que gostaríamos de fazer: pintar, freqüentar uma universidade, ler, aprender, fazer sexo, ir à praia, juntar-se a uma entidade beneficente, defender uma causa, fazer artesanato, comprar frutas no supermercado e fazer compotas para guardar em casa. Aprender a cozinhar.

Se perguntarmos a alguém se é feliz, provavelmente chegaremos à conclusão que 90% da humanidade é feliz, mas quando ouvimos as pessoas em particular, vemos que não é bem assim. Há sempre uma tristeza latente em particularidades não resolvidas, metas não conseguidas, bens não adquiridos ou perdidos. Por vezes falta sexo, em outras o excesso de sexo é o grande problema.

Sabemos que a ambição nos tira todo o tempo que tempos, e que dedicamos a uma causa para a qual a nossa ambição está mais voltada. Por isso acredito que a felicidade está ao alcance de todos nós: Basta refrear um pouco a ambição e pensar em algo para fazer. Todos os dias!

Rui Rodrigues

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Olhares de Elisabete



Olhares de Elisabete


Não conheço Elisabete Gonçalves (E.G.) pessoalmente. Conheço-lhe um pouco da alma que deixa antever em seus sucintos resumos, expostos como suspiros. Nascida nas altas montanhas do Norte de Portugal, curtida pelos frios invernos da Serra do Marão e pelos quentes ventos de verão que nos empurram para uma sesta, trás coladas à alma as lembranças de sua infância como medalhas que orgulhosamente ostenta como parte de sua formação tão humana e familiar.

São expressões de alma como estas que me fazem pensar sobre René Descartes quando constatou que “penso logo existo”. Elisabete me faz pensar que seria mais adequado dizer “Sinto logo existo”. E os olhos não são o espelho da alma, definitivamente, porque é muito simples refletir e eles são muito mais funcionais: são uma das formas de expressar o que nos vai na alma, principalmente de uma infância que deixa saudades.



Será contigo, papá!

Será contigo papá, sempre e num tempo sem fim, que dançarei a vontade da vida. Porque o teu corpo de onde se desprende um amor que nunca morre... Será eternamente a minha casa.
E.G.






 Promete-me, meu amor...



Promete-me meu amor, que subirás pelo meu corpo ao som do deslizar das minhas meias, no compasso de botões que se desarmam e... No calor voraz da urgência dos meus ais!
E.G.






                                                                    A carta nos correios

Voltou desanimada para casa, de ombros baixos e olhar vago. Depois de ter escrito naquela carta de três páginas tudo o que a fazia revirar na cama noites a fio quando pensava nele, ter borrifado o envelope cor de rosa de perfume e demorado duas horas a estacionar o carro perto dos CTT, nunca pensou que um ataque de pânico lhe secasse a boca ao ponto... De não conseguir colar o malfadado selo!
E.G.













                                                               O caminho da vontade

Quando a vida me sugar a vontade, como ola de rio em fúria onde num tropeço caí sem querer, vou tentar manter a calma. Vou fingir que é apenas um mergulho em apeneia em que testo as minhas forças e resistência, vou suster a respiração até ao limite, vou deixar-me ir sem me debater até sentir o ponto de viragem, onde baterei com os pés para ganhar velocidade de retorno. E quando de lá sair exausta e a escorrer, porei sem pressa, a roupa a secar e esperarei sentada numa pedra até a minha respiração de afogada me deixar prosseguir. Depois, de roupa seca, continuarei caminho.
E.G.

                                                                  Herança moral.


Quando a memória vagueia até há 40 anos atrás, é nesta foto do meu pai que as lembranças se concentram. Tinha 30 anos na altura e foi tirada num momento de descanso no meio da savana africana, algures no Norte de Moçambique. O meu pai foi e continua a ser militar e, em abono da verdade, esse facto torna-se indissociável da sua personalidade...E da minha. Todos os filhos de militares sabem bem do que falo: não há ninguém que não seja influenciado pelo carácter dos seus progenitores e do brio que ostentam na profissão que têm. Mas quando os pais são militares...Isso é inquestionável. Não há nenhum militar que consiga fazer “compartimento estanque” entre a sua profissão...E a influência que ela produz nos seus filhos, por mais que o tente. Mas ao escolherem tal “modus vivendi”...Quase que nos traçam o caminho. O código de honra, o sentido de dever, o cumprimento de tarefas, o companheirismo e a defesa do que é correcto não se herdam, é certo. Mas...Quase!
E.G.

                                        No meu corpo...


No meu corpo é o lugar onde me faltas. E nunca o amargo cheira a rosas...Nem o Inferno sabe a mel!
E.G.











                                         Amor e saudade

Juntos tinham o sabor de uma mistura de castas perfeita, que só se encontra em bebidas superiores, como num macio e aromático “Black & White”.
Mas quis o destino que suas vidas, tal como numa injusta lei de apartheid, fossem bebidas em copos separados.
E.G.





 A minha mãe


A minha mãe é uma mulher de pequena estatura mas, tal como Atlas, sempre carregou o Mundo. O dela...O meu... O do meu pai...O do meu irmão...E o do meu filho...!
Lutou com garras de felina contra uma infância desfavorecida, sem pai que morreu com apenas 30 anos abafado em pó de mina, foi à escola porque uma prima dividiu com ela a lousa e os livros que não tinha, desafiou a má sorte e...Levou-lhe a melhor. Com 8 anos tornou-se a escritora oficial da aldeia, a quem pediam para escrever cartas a namorados ou maridos no Brasil e que poupasse o papel.
Foi mãe aos 19 anos e fui a boneca que não teve na infância. Naqueles meados da década de sessenta também era difícil gerir o fundo da gaveta, que ela conseguiu com dotes de mágica e muita imaginação. E nem sequer tirou um curso para isso!
É também a mulher mais auto didacta que conheci. Além de ter uma biblioteca invejável, que devorei em Verões inteiros e me abriu Mundos longínquos, estudava nos meus livros escolares para poder ser a explicadora que não tínhamos dinheiro para pagar. E fê-lo com excelência, rigor...E Amor.
Em síndrome de ninho vazio não baixou os braços e com 60 anos foi fazer o secundário que nunca teve oportunidade de fazer e, apesar de nunca ter sequer ligado um computador, tornou-se numa cibernauta de fazer inveja a qualquer um.
A energia com que anda 7km por dia para “não enferrujar”, como gosta de dizer, ou com que vai para a natação, enche-me de orgulho. Com ela, não há medo, nem “não pode ser” e a simples idéia do cheiro dos seus cozinhados...Continua a fazer-me saudades da infância e de dias felizes.
Admiro a sua tenacidade e vontade férrea, que julgamos impossível caber naquele metro e cinquenta de Mulher. Mas nunca, nunquinha, conhecerei outra tão “grande”...Como Ela!
Adoro-te, Mãe.
Beijo.


                                                             O V da vitória



Naquele dia pela manhã sentimos algo estranho na voz em segredo das professoras e empregadas da escola que, sem uma única explicação, nos mandaram para casa com o aviso de que fossemos com cuidado. O regresso a casa foi feito de mãos dadas a espreitar esquinas, sempre à espera que nos aparecesse o “papão” de maus sonhos. Nada. Nadinha. O almoço foi feito em silêncio porque o som da rádio e televisão em que se rodavam botões à cata de novidades, não eram suficientemente altos para abafar o barulho de brincadeiras despreocupadas e infantis. Em ansiedade, ninguém nos explicava nada e a tal “Liberdade” que era dita em surdina, devia ser uma prima afastada na mente de quem nunca lhe tinha sentido a falta. Mas o mais estranho eram os “partidos” pr’aqui, “partidos” pr’ali...E resolvidos com desfaçatez de cérebro de 8 anos com um: “colem-nos, ora!”
O alcance desse dia só seria sentido ao longo dos anos , em adolescência rebelde e tatuada ou protestos de capa e batina por causa de cantinas ou injustiças. E também nos livros que se puderam ler em terreno aberto e nas palavras que se puderam dizer mal assomavam ao espírito. Mas o que mais relembro desse dia foi a volta de carro em vidros abertos pela avenida da cidade em caravana, fazendo um gesto que até hoje simboliza o vencer dos medos: o “V” de vitória. 
E “que nunca mais cerrem... as portas que Abril abriu”!
E.G.

                                                                 Este homem...Meu Pai!


Este homem da foto, que transporta uma criança (a única sobrevivente de um ataque a uma tabanca) no longínquo dia de Natal de 1967 em Moçambique (Matenda-Niassa), é o meu Pai hoje com 71 anos. A fotografia original e o que por trás tem escrito é um dos tesouros de memórias que guardo com imenso Amor. Eu tinha, na altura, a mesma idade que a criança que ele teimosamente insistiu em salvar...Valendo-lhe o lugar da frente na coluna (primeiro alvo a abater). Explicou-me mais tarde, que foi um presente para mim, nesse dia de Natal. A sua coragem, rectidão, alegria e Amor...Foram presentes de uma vida inteira. Continuam, pelos dias fora, a sê-lo de uma forma incondicional...Que só ele me sabe dar. 
E.G.





Elisabete tem uma página no Facebook: https://www.facebook.com/ContosSemFimAVista


Rui Rodrigues
INSTRUMENTO TEU
Marlene Caminhoto Nassa

Com a língua quente na minha gruta
A lamber o contorno dos lábios meus
Teus dedos travam uma delicada luta

Ouve se de repente, num instante,
Em forma de espasmo e de gemido meu
Um concerto doce e alucinante

Tiras notas dissonantes com tua batuta
Quando fazes do meu corpo o instrumento teu!
SAL E MEL
Marlene Caminhoto Nassa

A delícia de dialogar com um poeta
É que só ele consegue explorar uma gruta
Esculpindo poemas de forma tão quieta
Mas criando arte até da palavra bruta
Enquanto escreve uma poesia louca

Exploda, pois, estrofes de suas águas represadas
E inunda de mel e de seu sal a minha boca!
SÓRDIDA SOLIDÃO 
(Escrito com a letra inicial em S)
Marlene Caminhoto Nassa

Sua sorte:
Seu simples sudário
Seu seco, sensível,
Sucinto ser  soluça,
Sacudindo sua sorte.
Sentado, sozinho,
Sofrido,
Sem solução...
Somente só
Sofridamente sozinho...
Sacudindo saudades,
Suspiros saindo
Sorrateiramente
Sem suspeitarem serem sinais...
Satisfação? Só solitária...
Suculenta sofreguidão
Solidária?
Somente sórdida e sentida:
Solidão!

domingo, 22 de julho de 2012

Notícias do céu




Notícias do céu

Quando fui aos correios em Cabo Frio e abri a minha caixa postal, vi uma carta. O remetente era um amigo meu que havia falecido há uns dez anos atrás. Pensei que era uma brincadeira de mau gosto, mas abri curioso. Impressionante que reconheci a sua letra e o seu estilo de escrever. Sorvi o texto avidamente e voltei a ler. Não uma, mas duas vezes, encostado a uma banca de jornal que fica mesmo em frente ao posto de correios. Depois, como que por encanto, a carta desfez-se em pó que desapareceu antes de atingir a calçada. Do que me lembro, reproduzo a seguir.


Caro amigo,

Sei que dificilmente acreditará, mas consegui mandar-lhe esta carta que logrei introduzir em sua caixa postal aproveitando quando o funcionário dos correios a abriu para deixar uma outra sua correspondência. Mas se acreditar no que lhe conto, prepare-se muito bem. Não se arrependerá!

Não adianta. Seja num dia de sol, chovendo, escuro ao anoitecer, e esteja numa floresta, num deserto, no mar, numa montanha na neve, ou em seu apartamento, num restaurante, viajando, quando a morte vem, tudo fica escuro, um breu como a noite mais escura sem lua nem vela de glicerina. Por uns instantes ficamos pairando no ar vendo tudo o que se passa em baixo, onde nosso corpo ainda está, amarelado, sem vida. Com um pouco de sorte não terá ninguém conhecido perto e não verá ninguém chorando. Com muito azar, morre-se em família e sai aquela choradeira toda. Por uns seis a nove minutos ainda se escuta o que dizem. É um desaforo que temos que agüentar calados: A esposa que diz para as amigas mais íntimas: ”Até que enfim...”, os filhos dizendo “lá foi o muquirana”, a gata desesperada e o cachorro uivando como lobo triste e desamparado, o amante da mulher dizer para si mesmo: “Acabou-se!... Agora já não tem graça nenhuma trair o cara...”, Depois vê-se um clarão de luz vindo em nossa direção, e umas pessoas completamente nuas parecem vir para nós, mas é ilusão... Nós é que estamos indo em direção a elas, que nos vêem passar sem sair do lugar, dizendo adeusinhos com lindos sorrisos e abanando as mãos. Aquela coisa de vir trem ou ônibus nos apanhar como pensou o Jean Paul Sartre, é pura mentira. Não há nenhum escritório lá em cima, nem comitê de boas vindas para nos separar em grupos e fazerem perguntas idiotas. O que há é um avião muito bacana, todo de vidro, transparente, sem motor, como se fosse uma bolha que nos leva para vários lugares. A bordo, lindas bolhomoças e comissários de bordo, todo mundo nu. Ninguém levava bagagem alguma, nem de mão. Não temos que passar por detectores de metal. Já no imenso aeroporto nos dão algumas explicações: Vamos para o céu que sempre desejamos quando éramos vivos e teremos oportunidade de ver outros céus, conforme desejos de outras pessoas.

De longe podíamos ver outro aeroporto com filas imensas de viajantes exatamente iguais a nós. Até as bolhas eram iguais. Perguntei se era o Terminal número II. Uma anja simpaticíssima disse que não, enquanto me segurava a mão enquanto se encostava a mim sorridente: Era o terminal dos que iam para o inferno. Tremi, ou julguei que tremi. Então, como tenho a mania de querer saber tudo, perguntei qual a diferença entre céu e inferno: A diferença era que o inferno era um lugar onde só existia o que as pessoas mais detestavam. Somente depois de subir a bordo é que reparei em duas coisas fundamentais: a bolha em que viajávamos não tinha cadeiras, e lá embaixo, o que víamos era a Terra. Fazia sentido. Só fez mais sentido ainda quando minha bela bolhomoça me perguntou: - Está pensando que é a terra de onde veio. Não é? Assenti com a minha cabeça, completamente perdido com a beleza dela. - É... É a Terra, confirmou-me ela - mas é uma coisa impressionante, porque existem várias terras-céu. Uma para cada ano terrestre, porque não podemos misturar mentalidades diferentes. Logo entrariam em conflito.

Enquanto assimilava o que a minha bolhomoça me informara, olhei à minha volta, percorrendo todo o interior da bolha. Todos éramos jovens, naquela idade em que mais nos amaramos, fortes, bonitos, corpo esbelto. Cada mulher tinha um comissário de bolha e cada homem sua bolhomoça. Em breve troca de impressões com as pessoas que estavam mais perto de mim, ouvi que “aquela” era a mulher que sempre quisera ter, ou “aquele” era o homem com quem sempre sonhara. Havia lésbicas e gays na bolha, o que deu pra notar logo em seguida. Lá na frente havia um grupo sem acompanhantes. Eram sacerdotes de várias religiões que tinham feito votos de castidade. Alguns reclamavam que não tinham acompanhantes. Outros - ouvi pelas conversas - já tinham pedido as suas ou os seus.  A cada minuto ia ficando mais íntimo de minha bolhomoça.

Voávamos a baixa altitude, bem devagar. Passamos por um lugar lindo, cheio de tendas de circo, carroças de doces. Crianças e alguns adultos desceram A Disney era “fichinha” comparada com aquele imenso parque onde se andava em brinquedos perigosos sem necessidade de cintos de segurança. Crianças brincavam e divertiam-se, algumas sem acompanhantes, outras estavam acompanhadas de pais e babás. Lambuzavam-se com chocolates, pirulitos. Um pouco mais adiante, vi umas boates a céu aberto. As estrelas eram o teto. O povo dançava alucinadamente. Mas o maior recinto estava cheio de gente sentada, de frente para computadores, mandando mensagens e combinando encontros. À sua frente, biscoitos, pipocas, refrigerantes, pizzas, pratos de miojo, taças de vinho, bolachas champanhe. Logo ao lado, um outro recinto muito parecido onde multidões jogavam sofregamente em maquinas e aparatos de todos os tipos num arraial de luzes que piscavam, sons de maquinas anunciando que haviam acertado um “Jackpot”. A barulheira de vozes, gritos de satisfação, era imensa em qualquer dos cenários por que passávamos.

Em breve restávamos apenas um razoável grupo para sermos largados em nosso paraíso. Eu estava ansioso para saber. Largaram-nos numa praia tropical, imensa, com pequenas cabanas ao longo da linha de água. Não havia garçons. Tínhamos tudo à disposição. Podíamos preparar o que quiséssemos. Para cada casal uma cabana.  A luz do Sol já ia baixa e lançava tons róseos e alaranjados pelo céu. Eu estava no planeta Terra. Não tinha dúvidas. Ali, bem perto de mim, deveria estar gente real que ainda vivia, mas não podia vê-las.  Talvez com o tempo houvesse alguma forma de me contatar com elas. Deixei isso para depois, porque já estava com minha bolhomoça agarrada a mim, a caminho de uma cabana isolada. A luz que vinha do interior era convidativa. Entramos e nos beijamos. Então ela me disse: - Estranhará porque não tem nada para ejacular. Toda a bebida, comida que aqui comemos é apenas uma sensação... Não se come realmente ou se ejacula. Somos apenas uma forma. Nada do que vemos é material, embora sintamos tudo como se o fosse. Mas vamos entrar... Vamos aproveitar a noite.

Quando amanheceu estava reconfortado. Sentia-me eufórico. Vivo, alegre e feliz. Perguntei a minha companheira o que significava a vida na Terra. Respondeu-me:
- Lá é o purgatório, onde aprendemos a sofrer para que possamos discernir o que é bom do que é ruim e resolver o que realmente queremos. É um lugar de livre arbítrio. Aqui é o destino final, e não é tudo. Pode-se ir a qualquer lugar, saber qualquer coisa do universo, visitar ancestrais em suas terras-céu. Somos anjos sem asas, nem precisamos de bolhas para nos transportar de um lugar ao outro.  Esta viagem que fizemos foi apenas uma “cortesia”. Não há como enganar ninguém, fazer mal a alguém, matar alguém. Impossível. Não existe o “mal” por aqui, e como nada é material, não há disputas nem ambições. Cada um tem o que deseja e isso não depende do trabalho de outros.   

Espero que acreditem.

Rui Rodrigues

sábado, 21 de julho de 2012

O menino e os gibis.




O menino e os gibis.


Antevira o futuro, agora já presente, pela nuvem que costumava pairar em dias negros de sua infância, de sua juventude. O pai emigrara para um estrangeiro muito longe e a tia histérica que cuidava dele batia-lhe todos os dias com cinto, chinelo, o que tivesse à mão. Não raro lhe davam ataques que a deixavam contorcendo-se no chão por breves instantes. Depois ela levantava-se e tudo voltava ao normal. Freud teria certamente uma boa conversa com ela que a faria terminar com as divergências entre o seu alter-ego e o seu ego, mas naqueles tempos ainda se limpavam chaminés, os tempos eram difíceis e não tinham dinheiro para consultas. Ela só melhorou quando casou com um homem bom, gordo, calado, bonachão. Depois, passado pouco tempo, ela, que sempre vivera sozinha, começou a irritar-se com o marido, e novamente o garoto se viu mergulhado em dias negros, quando então se recolhia a sua nuvem. A nuvem podia ser interpretada porque falava através de sua própria linguagem. Falava através de livros de história em quadrinhos. O futuro estava todo lá, contado de forma acessível a qualquer um. O que a criança não sabia muito bem era se as histórias faziam o caminho para o futuro, ou se o futuro simplesmente se revelava nos livrinhos de histórias.

Sua personalidade foi sempre construída entre escolhas, dia a dia, reagindo a cada atitude do mundo, boa ou hostil, por reação contrária ou por adoção do comportamento, da idéia, da situação. Procuraria jamais bater em crianças, defenderia os fracos, teria que ser um forte até mesmo na determinação. Hoje, muitas décadas passadas, olha para o passado de vez em quando e vê, relembra, revê o que sempre lhe foi óbvio: Todas as histórias infantis eram tristes ou tinham seu lado triste. Até nas canções infantis. Talvez o futuro viesse a ser triste. Não o seu próprio futuro, mas o futuro da humanidade.

Quando assistiu ao filme “Pinóquio”, um livro de histórias em quadrinhos contado em movimento, preocupou-o mais a raposa que desviava o boneco vivo de madeira do que propriamente as suas mentiras, porque estas por vezes eram necessárias para fugir do furor crônico da tia, enquanto o ser desviado de seu caminho por pessoas interesseiras e que não estariam verdadeiramente interessadas nele, era muito mais importante. Notou que Pinóquio só tinha um pai. Ele não tinha mãe nem madrasta. Ele tinha uma tia que dizia cuidar dele, mas que era como se fosse uma madrasta. Talvez um dia o mundo não tivesse mais mães desse tipo, talvez os homens não casassem, talvez só nascessem filhos amados, desejados, que não fossem largados. Quem escreveu esta história não gostava muito de mulheres.

Assistiu ao filme “João e Maria”, e percebeu um mundo hostil às crianças, em que uma madrasta aconselha o pai delas a largá-los na floresta porque não tinham o que comer. O pai concordara e elas vão parar na casa de uma bruxa cega que tinha construído uma casa de doces e chocolates para atrair as crianças que engordava para depois as comer. O pai e a madrasta perdem tudo. Joãozinho mostrava sempre um osso de um dedo á bruxa, para mostrar que estava magro. Livres da bruxa que Maria consegue matar reencontram o pai que os recebe de braços abertos porque lhe trouxeram os tesouros da bruxa.
O menino aprendeu com esta história que tinha de fugir das bruxas, das madrastas, e que teria que ser independente para não depender de pai cativado por elas. Quem escrevera esta história não gostava muito de mulheres.

Folheou livros e livros de histórias em quadrinhos de super heróis: Batman, O Fantasma, Superman, Homem Aranha, Tarzan, todos muito poderosos beirando o endeusamento, mas nenhum era casado, nenhum tinha filhos ou filhas. Tinham dinheiro mas não se sabia de onde vinha. Tarzan preferia viver com uma macaca, mas soube-se depois que era na verdade um macaco. Os que escreveram estas histórias não gostavam muito de mulheres.


Branca de Neve divertia-se com os sete anões, demonstrando uma juventude promiscua. Os anões eram trabalhadores e extremamente ciumentos, cercando-a de todo o conforto. A madrasta dela era linda também, mas transforma-se numa bruxa velha e caquética para matá-la com um sono eterno produzido por um veneno contido numa maçã.  Traidora e ingrata, Branca de Neve acaba por apaixonar-se por um príncipe que herdaria a riqueza dos pais. Afinal, os sete anões eram apenas trabalhadores de minas que produziam qualquer coisa que não os fazia enriquecer nunca. Quem escreveu esta história não gostava muito de trabalhadores nem de mulheres.

Ali Babá não era casado e rouba uma caverna de ladrões cheia de riquezas mas não as devolve aos que foram roubados. Estes ficaram sem as suas economias. Casa-se com uma empregada que nem se sabe se era bonita ou feia, mas que tinha moral e ética, por avisar Ali Babá que os ladrões estavam escondidos em grandes ânforas de barro para matá-lo e ao irmão ambicioso que tinha ido sozinho na gruta também para roubar. Salvou-o Ali Babá, e por isso os outros ladrões os procuravam para se vingarem. Quem escreveu esta história achava que se pode roubar impunemente sem devolver o dinheiro roubado a seus donos. Não se vê outra coisa neste maravilhoso mundo novo.

A Gata Borralheira é uma irmã perseguida que sofre bullyng por parte das irmãs e da madrasta. Havendo um baile e impedida de ir, A Gata Borralheira recebe ajuda de uma fada “irreal” e vai á festa perdendo um sapato na pressa de voltar para casa. A madrasta e as irmãs são reais, a expressão do mal, mas a fada, que expressa o bem, é de mentirinha e usa uma vara para fazer milagres. O príncipe, inveterado pedólogo, apreciador de pés femininos pequenos, irá torrar toda a grana do pai casando-se com a dona do sapatinho perdido. Quem escreveu esta história deixou patente que uma em cada cinco mulheres é terrível, ruim. Não gostava de mulheres certamente.

O pato Donald tinha três sobrinhos e não era casado. Vivia amando uma garota, a Margarida, que tinha um amante chamado Gastão e era rico. Os três porquinhos viviam sozinhos numa casa instável porque o Lobo Mau as derrubava para comê-los. Mickey tinha uma namorada, a Minnie, mas não viviam juntos. Ele vestindo uma cueca e ela uma minissaia curtíssima. Ambos viviam sós. Amavam-se mas jamais se casaram. O casamento não era recomendável para quem escreveu estas histórias. Bom mesmo era a eterna namorada sem compromissos com quem se pode dar uma rapidinha e até passear de vez em quando.

Na história do chapeuzinho vermelho, a mãe e o pai não aparecem, a avó vive sozinha e o lobo mau quer transar com as duas. O gato Tom não tem uma amiguinha chamada Gerry. Gerry é um rato macho que o Tom quer comer de qualquer modo.

O menino da nuvem lidou com tudo isto pensando nas razões que levavam os autores a escrever histórias tristes para crianças, que dentro de um quadro imaginário incluíam mensagens subliminares esclarecedoras de suas próprias experiências infantis. Ou tinham tido uma madrasta das brabas, ou sofrido bullyng, ou eram gays por opção ou natureza. Decididamente o mundo era muito parecido com as histórias em quadrinhos, e, ou apontavam para um comportamento futuro, ou faziam o futuro do comportamento.

O menino já não vê nuvens em sua vida. Casou cedo, teve seus filhos, suas mulheres, não foi príncipe nem pobre, enfrentou ondas e vendavais. Não está na idade do lobo mas não é mau e gosta das mulheres. Teve a sorte de perceber que o mundo nada mais é do que uma história em quadrinhos contada de forma real todos os dias, mas já se abstém de ler essas histórias. Há novas edições e novas histórias no mercado. Calvin tem um amigo confidente de pelúcia, um tigre, mas é ainda muito criança. Tem pais ainda casados e só detesta a professora. Já é um progresso. Mas bom mesmo era a literatura de cordel. 


Rui Rodrigues