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quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

A Oração ao Pai...


A Oração ao Pai


Fui a um templo de uma religião pelos dias de Natal, para sentir a paz do silêncio, que parece ser a voz de Deus. No banco da igreja, naquele em que sentei, havia um papel dobrado que desdobrei e li o que nele estava escrito, que ora transcrevo. 


Pai Nosso que Estais no Céu...


Confúcio está no céu. Assim também os profetas. Todos! Estão lá Jesus, Buda, Maomé, Manitu, Odin, Thor, todos os deuses estão lá, e não são todos, porque todos por aqui, os filhos largados, dizem que é um só, é o Único, Onipotente, Onipresente, fez os céus, a terra, a Lua, os Universos.

Nós, os filhos, todos bastardos porque não somos filhos do mesmo deus, mas legítimos por ser apenas um só, vos, te rezamos pedindo que intercedas nos momentos difíceis, mas vos, te esquecemos quando tudo corre bem. Sereis por acaso deuses de oportunidade, sempre fiéis quando tudo nos corre bem, e nos fazendo de pecadores imerecíveis de perdão quando tudo nos corre mal?

A vós rezamos na esperança de que façais por nós o que não fizemos por nós mesmos porque não tivemos tempo, não tivemos disposição, ou não soubemos como fazer. E os sacerdotes que dizem ligar tudo na Terra que também será ligado nos céus, como intermediários de deus, ou que lá no céu será desligado o que aqui desligarem, nada mudaram em todos esses milênios, porque não sabem como nem quem sois, nem como fazeis. E nada mudará, porque não entendem e não entendemos.

Paises (mais de um pai) nossos que estais todos nos céus, orai por nós, porque vamos aos templos e de lá saímos sem pecado, prontos para prevaricar novamente, para nos esquecermos dos nossos semelhantes, vossos filhos, nossos irmãos... Escondendo em nossas lágrimas de crocodilos nossos pesares pelos outros sem que movamos uma palha para lhes resolver as dificuldades de forma definitiva, que esta sim, se resolve pela política e não pelas orações. Orai por nós, porque pecamos pela indecência de acharmos que os males do mundo não são culpa nossa.

Perdoai-nos por sermos tão convencidos que achamos que nosso deus particular é o mais forte e vai resolver todas os problemas advindos da iniqüidade, da gula, da ambição, da vaidade, da raiva e de tantos outros defeitos que temos, assumidamente, e ainda ousamos dizer que fomos feitos à vossa ou tua semelhança, porque na verdade sois muitos disfarçados de um só, o melhor, o mais poderoso. Ou se sois apenas um, temos que decidir qual, e jogar todos aqueles que temos na poeira dos tempos, onde outros mais antigos já se acolheram.

Nos enganamos porque nos convém, ou nos enganastes porque também nos convem?

É bom sairmos dos templos depois de termos dado nossa contribuição para a sopa dos pobres, mas nem nos perguntamos se a comeram, ou porque razões continuamos a fabricar pobres todos os dias pelas ruas das cidades e campos da humanidade.

Agradecemos-te por nos teres feito assim, tão dotados da capacidade de representar, tão bem, de forma tão perfeita, que nos iludimos todos os dias achando que somos bons, perfeitos, humanos, solidários, e que se os outros passam male porque são incapazes, preguiçosos ou indolentes. Nos iludimos tão bem que chegamos a achar que não nos falta o pão porque merecemos o teu olhar, a tua benevolência, meu deus, e que se os outros têm doenças, é porque não foram merecedores desse teu olhar, nesta vida ou em vidas passadas, como se precisássemos de mais de uma oportunidade porque desperdiçamos a primeira que tivemos... Assim se explicaria que tudo está escrito, que nada podemos mudar, que temos que aprender mesmo sem termos consciência de termos errado, nada seria culpa nossa, porque sempre seria das vidas passadas, mas não será assim, que as divergências são enormes de religião para religião.

Perdoai-nos senhor, senhores, porque não compreendemos que a salvação da humanidade já foi impressa desde que esta massa humana foi formada: Ou vivemos em paz entre nós, ou nos aniquilamos, todos os dias pelas diferenças sociais, que um dia explodirão, ou aos magotes em guerras fraternas, porque todos somos irmãos. Perdoai-nos por acharmos que nossas raças são superiores e que as guerras servem para aniquilar os nossos competidores por mais riquezas, mais bem estar, mais esmolas para os nossos templos e menos para os deles.

Perdoai-nos porque perdemos o amor de filhos e filhas porque lutamos entre esposos e esposas em casamentos desfeitos pela posse de bens ou pelo prazer do inimigo aniquilado, e assim também se perdem amigos porque se escuta mais a um do que ao outro, e se aniquilam empresas entre si, se danificam os campos, se mata a vida selvagem, se extinguem espécies.

Perdoai-nos senhor, por vos pedirmos o pão de cada dia, e tomarmos doses do whisky mais caro, dos melhores vinhos, porque a vida tem que ser vivida, e te pedimos ainda mais, mesmo tendo consciência de que ganhamos mais do que nos darias se dependêssemos de tua benevolência, e nos perguntaremos eternamente porque razão os ricos vão aos templos se já têm tudo de Deus. Acaso estarão fazendo média com os pobres e desprotegidos, mostrando-lhes orgulhosa ou habilmente através de sua capacidade de representar, que são humildes, e são ricos porque Deus os beneficiou? Porque pedem eles? Talvez por isso os pobres tenham deixado de ir ás igrejas e agora se voltem para outras religiões onde se identifiquem uns aos outros sem que se vejam afrontados em sua pobreza, porque a pobreza se afronta mesmo com a humildade. È fácil a humildade do rico e obrigada a humildade do pobre.

Dai-nos senhor, senhores, a religião dos pobres, dos que necessitam, dos doentes, das viúvas, dos viúvos dos órfãos e que não nos tirem o pouco que temos com dádivas a deus que nunca aparece para buscar tamanhas somas, em carros fortes enormes, com os anjos do céu a tomarem conta para que não lhe roubem os tesouros.

Perdoai-nos senhor por não sabermos entender quando nos dizem que receberemos em dobro tudo o que dermos, porque é difícil entender que se déssemos tudo o que existe, receberíamos o dobro desse tudo, o que é impossível, e do tudo apenas um pouco, faltaria aos pobres, porque os ricos têm mais para mais receberem em dobro. Não é esta uma política para pobres, que na verdade são quem os alimenta. 

Perdoai-lhes, senhor, senhores, porque está difícil perdoar coisas assim, quando estamos na platéia, assistindo, obrigados, a representarem em imenso palco com transmissão ao vivo para que todos vejam a glória.

Mas qual glória?”

... E com que moral julgar o que se escreveu e escreve a ponto de determinar nossos atos?


Rui Rodrigues

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