Arquivo do blog

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Portugal - Crise econômica, o fado, e como sair da crise


A Crise Econômica Portuguesa e o Fado – Como sair da crise.





Neste quadro de Malhoa que simboliza o Fado, as figuras expostas não são nem a Severa nem o conde do Vimioso. As figuras expostas são a Adelaide que tinha por alcunha a “Adelaide da Facada”, por numa briga ter ficado com cicatrízes na face esquerda (por isso aparece no quadro nessa posição) e o guitarrista é o Amâncio, amante da Adelaide.


Amália Rodrigues e atualmente Marisa, não era e nem é uma Severa, como a do quadro, mas sabia e sabe cantar muito bem o Fado, como neste trecho de Pedro Homem de Melo“

«Povo que lavas no rio.
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão!
Pode haver quem te defenda
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida não…»

Mas o que o Fado tem a haver com a crise econômica atual?

No meu entendimento tem tudo a haver. Somos uma sociedade que tem medos, que só fala em segredos, lamenta-se constantemente por se julgar uma “coitada da vida”, e que espera milagres de Deus, a re-ressurreição de Jesus, a vida eterna, Amem. Enquanto isso entrega as decisões do dia a dia a uns vigaristas que desfilam a sua simpatia pelas ruas e aldeias á procura de votos nas eleições e depois tomam atitudes que desperdiçam os nossos esforços de economizar para pagar impostos, gastam á tripa forra, distribuem verbas como querem, criam mecanismos que beneficiam uns e outros, mas que deixam o povo a cantar o fado pelas ruas da amargura. Este nosso povo canta o fado e reza padre nossos e ave marias, na vã esperança de que Deus o ouça e mande governantes honestos que lhe melhorem a vida.

Esses políticos estão associados a Partidos políticos. Fazem o que esses partidos querem. Não há políticos pobres, remediados ou pouco ricos. Estão todos gordos e os Partidos têm verbas para tudo, menos para aliviar o sofrimento dos cidadãos, dar-lhes serviços públicos decentes a que têm direito pela enormidade de impostos que paga.  Esses partidos políticos são espelho de todas as filosofias políticas: são comunistas, capitalistas, socialistas, e à mistura, todos têm um pouco de extremistas, fascistas, e outras aberrações das filosofias destinadas a governar como se os cidadãos fossem escravos e não “patrícios”, como no Código Romano que ainda adotamos, com o “Pater Famílias” que desconhece as “Mater Famílias” que já existem aos montes por este Portugal afora.

A solução para a crise econômica, neste caos e descrença política, somente poderá vir de uma manifestação popular que aprove via NET, de forma urgente, uma NOVA CONSTITUIÇÃO, parágrafo por parágrafo, que não possa ser alterada sem aprovação na mesma forma, para evitar que esta classe de políticos, instruída em Partidos, que beneficiam os protetores dos Partidos, que escutam nos corredores de S. Bento as pressões dos que podem pagar por decisões, não surjam, JAMAIS, no seio de nosso território.

Só assim Portugal poderá continuar na Zona do Euro ou ficar fora dela como a Inglaterra, permanecer na Comunidade Européia ou não, decidir os seus destinos sem as decisões unilaterais de alguns “PATRICIOS” que tratam o povo como escravos sem direito a opinião.

Opinião não é apenas poder expressá-la em praças públicas, mas ser ouvida pelo voto em S. Bento ou em qualquer Órgão Público onde se tomam as decisões pelo voto daqueles que, definitivamente, não nos representam!

Opinião, não é sair com toda a valentia, sozinhos ou em meia dúzia, a vociferar impropérios contra os governantes, molhar as mágoas na água benta das igrejas ou no chorar das guitarras do Fado. É fazermos, todos juntos, alguma coisa efetiva, no sentido de mudar o que achamos que está errado. O povo português, os cidadãos portugueses a não se juntarem em  torno de um rumo, uma decisão efetiva, continuarão a cantar o fado do presente e do passado, não o do futuro!


Não ha muita coisa errada que precisamos fazer mudar?

Sobre Democracia Participativa :



segunda-feira, 11 de junho de 2012

Ensaio sobre a Saudade e uma receita





Domingo passado passou por aqui no Bar do Chopp Grátis um sujeito especial. Um velho amigo meu. Trouxe um saco de peras do supermercado e quis surpreender-me com uma receita de bolo simples e saboroso. Trouxe também 250 gramas de manteira, 250 gramas de açúcar mascavo, 250 gramas de farinha e 250 gramas de açúcar comum. Pediu-me um pirex médio e um cálice de vinho do porto. Misturou a manteiga com o açúcar mascavo e a farinha. Ficou uma farofa um pouco úmida. Disse-me que era assim mesmo. Lavou e cortou as peras em fatias finas e espalhou a metade pelo fundo do pirex, jogando o cálice de vinho do porto por cima. Disse-me que se pode usar qualquer licor, Whisky, mas que o vinho do Porto lhe dá um toque especial. Em cima da primeira camada de peras cortadas em fatias, colocou a metade da farofa. Nova camada de fatias de pera, e nova camada de farofa. Levou ao forno, esperou até o açúcar mascavo começar a ficar marrom e retirou. Mais ou menos uns vinte a vinte cinco minutos. Provamos. Aquilo era uma loucura de bom.

Enquanto preparava a receita, começou a falar-me sobre saudades, porque tinha vindo até mim exatamente por isso. Sentira saudades e resolvera brindar-me com uma receita de sua avó. Eis o resumo do que consegui guardar do que disse: 

Ensaio sobre a saudade
  
Saudade parece estar estreitamente associada ao “quando”, porque este termo “quando” marca uma divisão entre dois momentos: o momento em que se têm alguma coisa, e o momento seguinte, em que essa coisa já não nos pertence, ou não faz parte de nossos momentos.

Quando nasci chorei. Senti saudades do útero quente, macio, equilibrado, tranqüilo, de minha mãe. Meu processo na relação com a saudade começou nesse instante. Falta de conforto era o meu primeiro significado de saudade. Em outros nascimentos a que assisti, anos mais tarde, ouvi dizer que “era” assim mesmo. Se a criança não chorasse teriam que lhe dar um tapa nos glúteos. Coitadas das crianças. Não é uma boa forma de entrar neste mundo!

Quando minha mãe me dava de mamar, sentia-me bem com sua mão sobre meu estômago, minha boca sorvendo o alimento de seu peito, o calor de seu corpo que me fazia sentir confortável, amparado. Quando depois me depositava no leito, eu chorava. Sentia saudade daquele bem estar. A falta do bem estar naquele leito sem calor, inerte, era o segundo significado de saudade. Minha mãe poderia ter ficado um pouco mais tempo comigo no colo, mas mães têm muito que fazer.

Quando um dia, malas prontas, casa desfeita, família a bordo de um transporte nos mudamos para outra cidade, senti saudades de minha terra natal. Criança  aceita as necessidades da família embora não as entenda muito bem, e mesmo quando entende, maldiz as necessidades de mudar, culpa tudo o que está por detrás dessa necessidade  que a provocou. Crianças mudariam o mundo para que quem quisesse mudar de lugar o fizesse por querer e não por necessidade. Cedo descobrem quem é que deve promover a existência de trabalho e bem estar para as famílias.

Quando um dia a conheci, senti algo muito diferente. Completamente diferente de tudo que tinha conhecido até então. Entre tantas mulheres neste mundo, ela tinha voz, olhos, corpo, e usava roupas, adereços, perfumes como todas as outras, e pintava os lábios, dividindo-me o olhar entre os olhos úmidos e os peitos generosos arfantes, as mãos úmidas nas minhas, como a me dizer que todas as suas partes estavam também úmidas, desejosas de atenção e carinho. Mas era diferente de todas as outras. Descobri então que depois deste sentimento que nos parece único, buscamos a repetição desse mesmo prazer em novos encontros. E a cada encontro, a nova felicidade de encontrar não a mesma mulher, mas o momento de sentir o que se sentiu com a primeira. E vi que homens e mulheres são feitos da mesma natureza, e não feitos um para outro, mas todos para todas e todas para todos. Buscamos aquilo de que sentimos falta e a isso se chama saudade.

Quando minha vida se fez de viagens e mudanças, e a isso já me habituara, parte de meus sentidos se acomodaram na insensibilidade de achar que a vida era assim. O lar já não era um tronco com raízes, mas pedaços de troncos cortados espalhados pelo vasto chão onde ainda plantava minha vida com minha família. Cada pedaço de tronco um lar largado no passado, cada lar uma tênue lembrança.  Deles não havia saudades.

Quando a família cresceu e se dividiu, cada um me deixou seu quinhão de saudades, cada quinhão com sua intensidade, cor, calor, perfume, ecos de palavras, ecos de expressões, ecos de alegrias e de tristezas, um saldo de vida em que nem tudo se resume a saudades. È uma saudade diferente de todas as outras. No meu primeiro sentimento de saudade, eu estava nu. Agora é a saudade que está nua, sem adereços que a distorçam ou a camuflem.

Quimicamente o amor pode ser interpretado como efeitos sensoriais que nos provocam inundações de produtos químicos em nosso cérebro e que nos dão a sensação de prazer. A sua falta provoca dependência, saudade, tristeza, até depressão, e isso explica o comportamento amoroso de casais em que um deles, normalmente as mulheres - até pelos efeitos da TPM - privam o parceiro da sua presença e de seus carinhos para que lhe sinta a falta, a saudade, a necessidade de voltar à sua companhia. É o “jogo do amor”, com a ferramenta da saudade a dar-lhe, a cada dia, um dia diferente. 

E nesse jogo da vida passamos nosso tempo a pensar e a decidir no que vale a pena investir o nosso tempo, criando saudades, desprezando saudades, prisioneiros de saudades.


Será a saudade uma forma de amor, ou uma ferramenta, uma arma, um engodo da natureza?

Rui Rodrigues

Armando a Roubalheira


Armando a Roubalheira


Taumaturgo Bode, Zeca Vamporra e Verônica Dúbia se encontram no Bar do Chopp Grátis.


Chovia a Cântaros. As ruas da cidade estavam praticamente inundadas por falta de interesse público em resolver qualquer problema. Parecia que os céus desabavam sobre a cidade e que os deuses patrões a humanidade, já que nos condenaram ao trabalho eterno, estavam ausentes. Os governantes que elegemos para nos representar nem apareciam na TV para se defenderem dos ataques verbais lançados na mídia e pelas redes sociais. Estávamos em época pré eleitoral. Ninguém faz nada e tinham feito muito pouco. As denuncias públicas de roubalheira estavam pelos jornais, impregnavam até os poucos banheiros públicos ainda existentes. Sem banheiros públicos, velhinhos mijam nas calças ou nas ruas. A sociedade condena, mas já urinou em algum lugar e nem sofre de continência urinária. 

Fui até à porta para fechar o Bar. Tinha havido alguma freguesia pela tarde, mas agora à noite não havia ninguém na área, e até os automóveis eram poucos. Já junto à porta, vi parar um táxi. Percebi que a noite seria longa. Nada mais nada menos que um homem que eu não conhecia, gordo, avantajado, estava acompanhado de três personagens que eu conhecia muito bem. Eram os fantasmas Taumaturgo Bode, Zeca Vamporra e a linda e gostosa Verônica Dúbia esta a mais linda fantasminha, minha camarada. Voltei a pousar o gancho da porta de correr a um canto e com uma vênia, indiquei-lhes o caminho da sala principal do Bar. Cumprimentaram-me com acenos de cabeça e entraram.

Verônica Dúbia pediu que lhes disponibilizasse a sala reservada. Acompanhei-os e preparei-me para anotar os pedidos.

(Verônica Dúbia) – Deixe-me apresentar-lhe um amigo nosso, o senhor Karl Kaskat. Ele gosta muito de animais e tem uma ONG que só cuida de bichinhos. Ele faz muita propaganda para defender o seu zoológico. Sai por aí grudando propaganda em todos os postes da cidade. É muito rico e poderoso e a ONG é auto-sustentável. (E olhando para eles) - O que vamos traçar?

(Taumaturgo Bode sorrindo) – Um traçado mesmo!
(Zeca Vamporra) – Um Bloody Mary...
Karl Kaskat – Uma garrafa de champanhe para mim e para ela (apontando para Verônica Dúbia)

Os outros dois se insurgiram (Taumaturgo Bode e Zeca Vamporra): -Péraí (disse o Zeca). Nesse caso não vamos destoar. Vamos todos de champanhe... (Verônica Dúbia arrematou): - Nacos de lagosta na manteiga com limão, torradinhas com caviar e rodelas de ovo e bolachas champanhe, pela ordem para acompanhar.  

Discretamente saí e fui preparar os drinques. Olhei em volta para ver se alguém estava vendo, e liguei o meu programa de “vigilância” do interior do Bar, mais especificamente da sala reservada e cliquei em “gravar”. Preparei as bebidas e os petiscos e levei pessoalmente, em duas viagens, até a sala. Não quis que vissem uma amiga escondida atrás do balcão. Se vissem eu estaria numa encrenca dos diabos. 

Conversavam em voz baixa e estavam muito animados, as cabeças sobre a mesa, umas na direção das outras demonstrando confiabilidade, aliança, congraçamento. Por via das dúvidas face ao tipo de petiscos, supri a mesa com bastantes guardanapos.

Ficaram lá por longo tempo, pedindo mais champanhe. Então decidiram sair. 

- Quem paga o táxi? - (Perguntou Verônica Dúbia).
- Eu pago, disse Karl Kaskat. Já paguei a conta também. Sabem que comigo não há problema de dinheiro... (todos assentiram com a cabeça).

Eram duas da manhã quando finalmente saíram do Bar.

Ao efetuar a limpeza da mesa, verifiquei que tinham escrito nos guardanapos. Estavam todos rabiscados, cheios de contas, pontos de interrogação, cifras envoltas em círculos. Deduzi que os valores se referiam a moeda nacional e pelas siglas que se tratava de uma distribuição de um botim,um tesouro, e pelos valores anotados, deveria ser o tesouro nacional.

Pensando já em não dormir, assegurei-me mais uma vez que as portas do Bar estavam bem trancadas e assisti à gravação. Para meu desespero, a gravação estava deficiente e cheia de lapsos. Não tinha explicação para isso. Mas pude entender o que se segue:

-...O resumo é o seguinte: Com o grau de insatisfação da direita e da esquerda, face aos escândalos da política, pode acontecer do TERSOL ganhar as próximas eleições. Nas anteriores já conseguiram mais de vinte milhões de votos. Precisamos de muito dinheiro para as eleições, para comprar os votos e obrigar ao voto de cabresto (disse o Zeca Vamporra).

-... O Karl Kaskat tem que ficar calado o tempo todo durante os interrogatórios. Não pode entregar ninguém senão damos um jeito e tem que levar chumbo... Internamente eu asseguro o imbróglio para demorar até vencer as oposições pelo cansaço. Os que recebem mensalmente vão negar tudo que disseram e vão ficar calados também (Taumaturgo Bode e virando-se para o Karl, disse): - Entendeu direitinho?

(Karl Kaskat engoliu em seco).

-... Não se esqueçam que as licitações são sempre de “mão na cumbuca”. Por isso todas as outras empresas estão angariando fundos porque ganharam obras no programa como num pacote. A minha empresa ganhou umas obras, elas ganharam outras. Dinheiro não vai faltar. Minha OGN sempre tem dinheiro, não é tanto, mas posso arranjar algum. (disse Karl Kaskat, o único que não era fantasma, além de mim, é claro, mas todos nós virtuais).

.-... Vão ser mesmo as eleições mais caras de toda a história. Já estou pensando no que fazer com as sobras de campanha. Não quero levar uns tecos como o PC. (disse Zeca Vamporra, e voltando-se para Taumaturgo Bode, complementou:) – Não farias isso comigo, Taumaturgo. Farias?

Taumaturgo balançou negativamente a cabeça várias vezes de forma enfática, dizendo: - Eu? que é que eu tenho a haver com isso? (ninguém respondeu nem sim nem sopas).Mas podem deixar que vou falar com ela para impor sigilo nisso tudo e ainda aumentar o valor das obras para não prejudicar o andamento dos negócios. 

-... Sei que os Bancos vão contribuir com uma baba muito grande! (Verônica Dúbia), e com verbas do Banco de Desenvolvimento através de “empréstimos” que depois viram pó com os prejuízos, os esquecimentos e os Contadores que sempre dão um jeito na contabilidade do Banco... Grana no bolso e barra limpa!

-... Não !!! está tudo bem (disse Taumaturgo Bode). Só tem meia dúzia de gatos pingados nas ruas de vez em quando. Revolta popular igual à do impeachment está fora de cogitações. Ninguém sabe de nada destas tramoias embora todos desconfiem. Até lá no meu meio eles aprovam qualquer coisa sem nem ler o que aprovam. Estão lá só para ganhar grana e obedecer aos partidos. Na hora de assinar olham pra mim e já me conhecem. Aprovam direitinho. Eu acho que aquela cena do Impeachment foi lamentável. Nunca deveria ter acontecido.

-... Ideologia já era (disse Zeca Vamporra). A classe C já se julga da classe média, quer ganhar mais e gastar mais. Como ganha mais um pouco do que o nada que ganhavam, estão quietos e sob controle. Um dia se dirão capitalistas. (pelo vídeo vi que todos abanavam a cabeça afirmativamente)

-... É. O caminho parece que é o capitalismo mesmo. (Taumaturgo Bode). Quem não gosta de ter algumas coisas básicas como automóvel, computador, celular, bolsas caras, dinheiro para sair do SUS, morar em bairros sem esgoto a céu aberto, etc... No comunismo, no socialismo e no capitalismo sempre houve e ainda há bairros melhores e bairros piores que são ajuntamentos de restos de lixo. Nem diferença há nas proporções. Por isso que fiz a transição daquela dura para esta mais mole.

Começaram a se arrumar nas cadeiras, apanhando os seus pertences. Iam sair. 

(Karl Kaskat se adiantou)... Nada disso! Podem deixar que eu pago a conta! 

A ultima imagem gravada foi a do Karl Kaskat segredando em meu ouvido que depois passaria pelo Bar para pagar a conta porque no momento estava desprevenido. Assinou num guardanapo.

Minha amiga saiu detrás do balcão e veio para os meus braços, ali mesmo no sofá. Já tinha esperado tempo demais.


Rui Rodrigues

domingo, 10 de junho de 2012

Cultos Religiosos!

Cultos religiosos!


Não vejo diferença nenhuma entre um culto religioso moderno, de qualquer religião e um antigo, praticado na Ásia, na África na Europa ou mesmo hoje em dia, pelos índios na Amazônia. Eles se enfeitam, fazem oferendas, dançam e se martirizam. Tudo como oferenda para um ser superior. Todos acham que têm que provar a um deus que são mais fieis que seu vizinho, portanto mais dispostos a qualquer sacrifício que esse deus peça. Tendo assim, direito a mais favores dele. 
Por mais que um religioso de qualquer credo não aceite, tudo tem o mesmo sentido. São nomes diferentes, são frases diferentes, são tradições diferentes, são por fim, enfeites e oferendas diferentes, mas o sentido e a busca são os mesmos. Ainda que o fato de dizer isso crie nos religiosos, certamente, reações nada civilizadas, uma procissão católica, uma festa junina no nordeste, uma festa indígena no Xingu, um sacrifício de um muçulmano, ou as fogueiras santas das igrejas evangélicas, têm sim, o mesmo sentido: agradar ao deus que professam. Padres, bispos, papas, pastores, rabinos, pajés, mestres no budismo, e todos que lideram reuniões religiosas, se enfeitam, seja pintando o corpo ou com vestimentas especiais, simplesmente porque crêem que assim, seu deus olhará para eles de forma especial, dando-lhes poderes sobre os participantes comuns.
Tudo o que buscam, em qualquer língua, credo, ou seita, é simplesmente ter uma vida mais fácil na Terra, conseguir que sua cria sobreviva e vencer a morte. Aliás, o sentido de finitude é sem duvidas o que mais justifica uma religião. Não conseguimos aceitar para nós humanos um fim. Buscamos uma eternidade, sem nem ao menos ter idéia do que seja viver por bilhões e bilhões de anos. Achamos que eternidade é o que, para nós, é muito tempo. Acho que as pessoas pensam nela com no máximo algumas centenas de anos, milhares talvez. A humanidade vive há muito pouco tempo na Terra para imaginar a eternidade na casa dos bilhões de anos.
Muitas pessoas seguem uma religião não por crer realmente, mas por temer. Temem a eternidade no inferno. Nada questionam pelo medo de um castigo na Terra ou na vida pós-morte. O mesmo acontecia na antiguidade. O povo fazia sacrifícios para ter colheitas generosas, para ganhar guerras, para se livrar de vulcões. Achavam que se desafiassem os deuses, esses seriam cruéis com a aldeia, a família, ou com a vida no geral. Ainda hoje o medo persiste. Pessoas têm medo de questionar padres ou pastores, assim como os índios não questionam seu pajé.
Na realidade, hoje, nos enfeitamos, cantamos, dançamos, falamos palavras mágicas e levamos oferendas para nossos deuses, do mesmíssimo jeito que nossos antepassados pré-históricos. Buscamos inclusive as mesmas coisas. O que difere é que, com a civilização, não sacrificamos crianças mais. Se bem que, nas tribos atrasadas da África e da Amazônia, eu não duvide que ainda aconteça. Também os altares para as oferendas mudaram, se na antiguidade eram pedras ou grutas, hoje são templos, muitas vezes imensos.


Texto inacabado, Paulo, 06/02/2010.

Os sócios



Os Sócios

Este bar é como todos os bares da vida. Depois de tomarmos um par de drinques de qualquer coisa, preparados com qualquer coisa, chacoalhados de qualquer modo ou nem chacoalhados, a qualquer minuto nos relaxam e nos deixam dizer coisas quaisquer a respeito de qualquer coisa.

Seu Júlio já foi moço de recados, servente de lavar chão em lojas, entregador de hortifruti. Juntou dinheiro e ficou sócio do dono do Hortifruti. Logo abriu outro (Hortifruti, claro) e acabou por comprar a loja do tal sócio, pondo-o para fora do negócio. Comprava para as duas lojas, mas entregava as mercadorias preferencialmente na que era só sua. 


Dando prejuízos mês a mês, o sócio dele preferiu vender a baixo preço a sua parte ao senhor Júlio a continuar perdendo dinheiro. Logo “seu” Júlio conseguiu impressionar incautos com o seu sucesso e arranjar novos amigos sócios. Mudou o ramo para bares e restaurantes. Casou-se com a mulher de um comerciante de ramo diferente que o ajudou financeiramente para ajudá-lo, e, em decorrência, a própria filha. Em cerca de 30 anos de atividade neste tipo de negócio, conseguiu ter 35 casas no Rio de Janeiro, 22 em S. Paulo, 12 em Porto Alegre e 6 em Salvador. Perdeu todos os amigos sócios e os sócios amigos. 


A vida dele era de mulheres e negócios. A mulher, nessa solidão de gaiola dourada, resolveu ser moderna. Exigiu e conseguiu a ajuda de “seu” Júlio para que lhe montasse uma pequena birosca para a venda de sucos de guaraná, pastéis e sanduíches. Em parte, porque seu Júlio mandou a mãe para dentro do apartamento deles para conviver com a mulher. A mãe, bronca, de aldeia, não podia dar certo na modernidade. Implicava com a nora sempre que entendia, e o filho tomava as suas dores. Seu Júlio fornecia tudo para a birosca da mulher, o que lhe garantia que jamais tivesse lucro e ela se tornasse competidora dele. Depois de alguns anos, ela largou o marido, os filhos e foi para Salvador, vendendo tudo o que tinha ao desbarato. Seu Júlio nunca mais ouviu falar da ex-esposa Ninguém mais ouviu falar. Ninguém se importa do que ela faz. Nem os filhos. Estes só sabem que um dia tiveram mãe. Talvez nem tenham foto dela.

Seu Julio ainda está na ativa, mas quem recebe o dinheiro nas lojas dos sócios que ainda tem – a maioria das lojas é dele apenas - são os seguranças sempre acompanhados de um contador que não conta histórias nem as quer ouvir: quando a conversa se enrola, avançam e metem a mão na caixa do dia. Anda sempre com seguranças.  Agora mesmo tem dois lá fora do Bar do Chopp Grátis que certamente o carregarão para casa.

Hoje, depois de alguns Irish Coffees, seu Júlio acaba de entrar numa situação de claro porre!

Pediu para que me sentasse a seu lado e logo me passou a mão no ombro. Encostou a sua cabeça perto do meu ombro e disse-me enquanto pegava o seu drink e lhe sorvia um generoso gole, passando a língua nos lábios e dando uma gargalhada:

- Rá!... Passei a perna em todos os sócios, mas eles pediam isso. Nunca me perguntavam como eu fazia sucesso. Quando os convidava, eles tinham dinheiro, eu sabia dos negócios... Rá!... Nem sabiam o que perguntar porque não entendiam do negócio! Queriam que eu os ajudasse a ficarem ricos! Se lhes ensinasse as tramóias, iam fazer-me concorrência... E eu sou disso? Mulher!... Mulheres há tantas e gostosas! Para quê ficar mantendo uma em casa que só enche o saco e quer mais e mais e mais? Estou certo?

(Estava com o rosto bem de frente para mim, o corpo torcido na cadeira para poder enfrentar o meu olhar e tentar perceber se minha resposta seria verdadeira. Aquele sujeito era uma velha raposa, precocemente velha, que jamais vivera uma vida de verdade, jamais procurara instrução porque gente instruída não fica rica nem deixa que a explorem... Respondi-lhe incorporando as minhas melhores convicções)

- Creio que sim, seu Júlio. Não entendo muito de negócios. Não tenho sócio e o que ganho no Chopp Grátis mal dá para as despesas... Mas estou curioso como os enganava. Tem que ser muito inteligente para enganar tantos...

Olhou-me procurando ver em meus olhos, em minha expressão facial algum sintoma de que estaria tentando extrair suco de pedra. Como não viu nada, continuou:

- Rá!... Você não é como eles. Por isso vou te contar. Quando chego em alguém para convidar para sócio, já sei que tem dinheiro. Ou roubou, ou ganhou por herança, não importa. Está com o dinheiro e quer aplicar. Se não quiser aplicar, eu convenço levando essa pessoa para ver as minhas lojas. Nelas, os meus sócios só podem cooperar comigo, porque só os levo nas lojas em que eles estão ainda satisfeitos. Depois abrimos o negócio. Já na montagem levo a minha parte ao contratar os fornecedores de materiais, equipamentos e de mão de obra de execução. Ou seja, minha parte no negócio já me sai quase de graça. Como eu forneço grande parte dos produtos, a título de manter a qualidade, já lhes roubo parte do lucro porque nesse fornecimento já levo o meu próprio.

(Pegou o copo e acabou com o Irish Coffee. Pediu-me outro. Enquanto eu o preparava, continuou falando. O bar estava vazio, os seguranças lá fora).

- Rá!... (que mania de falar aquele Rá, irritante, como se estivesse expurgando demônios). Claro que logo nos primeiros meses o movimento era muito grande. Sempre que eu podia, comprava ou alugava uma loja nas imediações, e montava um negócio semelhante com outro sócio, fazendo concorrência a mim mesmo e a esse... Parece complicado? (olhou e não me viu a seu lado. Procurou pelo salão do bar até me encontrar atrás do balcão).

- Rá!.. Ouviu? ... (-ouvi! Respondi-lhe detrás do balcão)... Mas o melhor vem agora... Chega aí para ouvir... (e acenou-me com o braço repetidamente chamando-me para a mesa)
Cheguei rápido. Irish Coffee prepara-se rapidamente com o café já super aquecido

- Rá!... Com a concorrência, o sócio via diminuir a freguesia e me pedia para comprar a sua parte. Se não pedia, pedia-lhe eu... E assim a loja me saía de graça. Tudo lucro!... rá, rá, rá... Se eu não arranjasse loja perto, começava a torrar o saco dos sócios dizendo que aquilo era loja para dar muito mais lucros e que eles não estavam gerindo bem. Depois de algumas discussões, ficavam irritados e vendiam-me a parte deles.

Perguntei-lhe á queima roupa para não lhe dar tempo para pensar:

- E quem toma conta das lojas que passaram a ser só suas? Não tem medo de que o roubem?

- Rá... E eu sou trouxa, para arranjar sarna para me coçar? Ou arranjo novos sócios ou passo as lojas... Ainda hoje tenho lojas sendo passadas e lojas abrindo... Enquanto houver trouxas, eu vou ganhando a minha grana. E olha... Já comi muita mulher de sócio... Rárárárárá...

E ria a bandeiras despregadas... Aquilo ali era um dejeto humano, uma excrescência da natureza, filho de uma mãe que nunca deveria ter nascido, viveu nas crenças da nulidade e morreu rica sem saber.

“Seu” Júlio, amparado por seguranças que lhe dividiam as mulheres, saiu cambaleando do bar. Já na porta gritou-me:

- Claro, que com você, seria diferente... Um dia faremos um bom negócio. Pode escrever! (certamente tinha-se dado conta da mancada de ter-me contado os seus segredos).

Chovia lá fora. Aproveitando-se do fato de estar amparado por seguranças e estes estarem com as mãos ocupadas, um carona de uma moto que se aproximara silenciosamente da portaria do Bar disparou vários tiros usando silenciadores. Seu Júlio e os dois seguranças caíram na calçada. Corri para o telefone e liguei para a polícia e para os bombeiros. Não vi a placa da moto nem os rostos dos motoqueiros.


Não sei porque razão, mas não pedi nada a Deus.

Rui Rodrigues


sábado, 9 de junho de 2012

O urso, o ateu e Deus


Um ateu estava passeando em um bosque, admirando tudo o que aquele "acidente da evolução" havia criado.

- Mas que árvores majestosas! Que poderosos rios! Que belos animais! Lá ia ele dizendo consigo próprio. À medida que caminhava ao longo do rio, ouviu um ruído nos arbustos atrás de si. Ele virou-se para olhar para trás. Foi então que viu um corpulento urso-pardo caminhando na sua direção. Ele disparou a correr o mais rápido que podia. Olhou, por cima do ombro, e reparou que o urso estava demasiado próximo. Ele aumentou mais a velocidade. Era tanto o seu medo que lágrimas lhe vieram aos olhos. Olhou, de novo, por cima do ombro, e, desta vez, o urso estava mais perto ainda. O seu coração batia freneticamente. Tentou imprimir maior velocidade. Foi, então, que tropeçou e caiu desamparado. Rolou no chão rapidamente e tentou levantar-se. Só que o urso já estava em cima dele, procurando pegá-lo com a sua forte pata esquerda e, com a outra pata, tentando agredi-lo ferozmente. Nesse preciso momento, o ateu clamou:
- Oh meu Deus!....
O tempo parou. O urso ficou sem reação. O bosque mergulhou em silêncio. Até o rio parou de correr. À medida que uma luz clara brilhava, uma voz vinda do céu dizia:
- Tu negaste a minha existência durante todos estes anos, ensinaste a outros que eu não existia, e reduziste a criação a um acidente cósmico. Esperas que eu te ajude a sair desse apuro? Devo eu esperar que tenhas fé em mim? O ateu olhou diretamente para a luz e disse:
- Seria hipocrisia de a minha parte pedir que, de repente, me passes a tratar como um cristão, mas, talvez, possa tornar o urso um cristão?!
- Muito bem - disse a voz. A luz foi embora. O rio voltou a correr. E os sons da floresta voltaram. E, então, o urso recolheu as patas, fez uma pausa, abaixou a cabeça e falou:
- Senhor, agradeço profundamente, por este alimento que me deste e que agora vou comer. Amém.

Falando sério... Sobre o amor




Falando Sério...
Sobre o amor  e não é piada.


Aqui no Bar do Chopp Grátis passam tipos de todos os tipos, caras com várias faces, sujeitos sem predicado e outros sem complemento do sujeito, seres que são, outros que parecem e que não são, outros que perderam o rumo e nem sabem onde estão. Alguns bebem muito, outros pouco, e outros ficam na conversa segurando um copo vazio, vendo se ainda lhes sai fumo dos dedos. De vez em quando se confessam como se estivessem diante de um padre. Talvez por causa de minha roupa preta e branca de barman me confundam com padres. Mas também não sou barman, embora de vez em quando vá para detrás do balcão. Se me descobrem logo me levanto e para disfarçar, começo a preparar umas Margueritas, Bloody Mary, Irish Coffee. O que tiver á mão. Pisco Sauer, Caipirinha ou traçado para matar. O Traçado, para quem não conhece, é uma mistura, sem chacoalhar, de cachaça com Martini Rosso sem azeitona, sem cereja, sem nada. Depois de uns quatro ou cinco, podem chamar a ambulância que vai dar coma alcoólica.

Ela vai para o caixa, sorrateiramente, também para disfarçar.

Pedro Barbosa costumava vir ao bar acompanhado de uma gringa loura, bonitaça, peituda, uma bunda almofadada, pele cor de rosa e um sorriso maroto de lábios grossos, sempre olhando por detrás dos ombros do Pedro Barbosa, com toda a cautela para não levantar ciúmes. Ele estava apaixonado e não reparava em nada. Ela reparava em tudo com uma memória fotográfica. Ele jamais perceberia os bilhetes que outros me pediam para passar àquela bela mulher. Eu concedia o favor porque os bilhetinhos sempre vinham acompanhados de uma nota poderosa do tesouro nacional ou internacional. Minha consciência estava quieta lá no seu canto, descansando das problemáticas da vida. Estas coisas nunca acontecem conosco.

Um dia, Pedro Barbosa chegou sozinho. Calado, macambúzio. Sentou-se, pediu um traçado. Achei que a coisa estava feia mesmo. Sempre pedia umas Margueritas. E logo pediu mais um, como se competisse com ele mesmo para ver quem agüentava mais. Lá pelo sexto traçado, Pedro Barbosa levantou-se sem dizer nada, deu um impulso na direção do banheiro e voltou a sentar-se. Pediu mais um que deixou em cima da mesa, inerte, inteiro e começou a contar-me uma história. Como estávamos a sós resolvi atender a sua necessidade de falar. Eu não estava fazendo nada mesmo, porque o bar estava quase vazio.

- Paquito... (nunca entendi porque me chamava de Paco no diminutivo, se nem bigode eu tenho e não uso chapéu mexicano)... Lembra aquele mulherão que eu sempre trazia aqui? Ela foi-se, a Sofia!... (Eu já desconfiava)... Estou triste! ...Quer dizer... Nem estou!

(deixei rolar o silêncio)

- Cara... Já vi de tudo. Já traí sem ser traído, já traí e me cornearam. Mulher é um bicho doido. Uma viveu comigo cinco anos. Tínhamos dois filhos. Um era meu. Descobri que o outro não era porque suspeitei e pedi a um amigo que fizesse um teste de DNA, porque desconfiava de um sujeito... Já tínhamos trabalhado juntos nessa cidade e achei o moleque parecido com ele... Mas afora isso nem tinha motivo sério para desconfiar. Fui até essa cidade distanciada uns dois mil quilômetros e consegui arrancar uns cabelos do braço dele passando-me por veado... Não deu outra. O moleque era filho dele. Num falei nada. Arrumei as malas e zarpei fora. Soube que ela botou o cara na justiça e ganhou uma renda mensal. Quer dizer... Se eu não descobrisse a tramóia, ela ia deixar que trabalhasse a vida toda feito um filho da puta pra cuidar de outro filho da puta... E o cara lá no bem bom...  Chamava-se Alice. Rodou.

(Eu deixei rolar o silêncio. Quem estava mais distraído era eu que não estava bebendo, absorto pela narrativa dele. Digo isso porque me pediu mais um traçado. Olhei o copo dele e estava vazio. Juro que nem vi quando tomou o copo. Deve ter sido de uma vez só)

- Paco... (Olhou pra mim)... Tu é casado? (senti uma sapatada na cara, como se o sapato tivesse sido atirado por catapulta, á queima roupa)

- Não, senhor Pedro Barbosa. Nunca fui... (resolvi descontrair) E para que veja que não está sozinho nessa aflição, conto-lhe que  namorei um menina com 19 anos, e a peguei dando o traseiro, que sempre me negara, para um sujeito que nem cheguei a conhecer. Tava ela lá de quatro na cama, gemendo: Ai... Ai... Assim você me mata... Deu-me vontade de dar uns sopapos na cara do sujeito – que estava de costas - e acabar o serviço que ele estava fazendo, mas me contive. Saí de fininho, nem me viram. Nós nos encontrávamos no apartament de uma amiga dela, independente, que dava umas saídas estratégicas quando nos encontrávamos. Já que disse o nome da sua, esta chamava-se Maria. Ela me avisava sempre que se alguém batesse á porta, para não atender. A amiga tinha um namorado ciumento que aparecia de vez em quando (nem me passou pela cabeça contar-lhe que no apartamento havia uma geladeira que quando o termostato ligava, ela fazia barulho e me assustava).

- ha... ha... ha... (disse ele lentamente, sem sorrir)... Já passei por essa também!... Cara... (agora eu já não era Paquito nem Paco)... Duvido que tu tenha mais experiência que eu nessas coisas... Quer ver? (e continuou).

- Conheci uma, calminha, toda recatada que vivia com os pais. Também tinha 19 anos e dizia que era virgem, quando a conheci. Eu tinha 22 e não acreditei. Quando transamos a primeira vez, ela sabia todas. Foi uma loucura. Fiquei meio surpreendido e vi nos lençóis uma manchinha de nada, esmaecida, diluída, cor de sangue. Pensei:... Deflorei a menina! Agora vou ser pai, não posso mais estudar. Minha vida foi pro esgoto. E vou ter que casar, porque ela é filha de boas famílias e vive com os pais. Passei assim uma semana mais ou menos. Um amigo meu me tranqüilizou. Disse que sabia que ela já tinha tido uns caras, escondido dos pais, e que não contara para ninguém que a vira ir acompanhada com um deles para a casa de uma amiga que saía para que eles ficassem lá. Não queria que houvesse falatório da menina por causa dele. Cara legal.

(Pedro Barbosa olhou para mim e disse): – Era costume naquela época ter uma amiga que facilitava as coisas, né?... Ela chamava-se Maria. A partir desse dia, abusei mesmo. Fiz tudo com ela. Certa vez em que nos encontramos no aprtamento começou a dizer que se alguém batesse á porta era melhor ficar caladinho e quieto, porque a amiga tinha um namorado muito ciumento que costumava ir lá procurá-la. Se ninguém atendesse, ele iria embora. Ainda continuo com ela. É a minha garota de fé.

- Olha que coincidência, Paquito... (o Pedro Barbosa olhou-me intrigado, quase rindo)... A sua era Maria, tinha uma amiga que cedia o apartamento, que tinha um namorado ciumento... Só falta dizer que a geladeira dava um tranco quando o termostato a ligava... Tomei muito susto com isso...

Eu já ia no décimo traçado quando ele ligou o celular pedindo um táxi.

Logo que saiu, Sofia saiu de trás do balcão e veio sentar-se ao meu lado no sofá

Rui Rodrigues

sexta-feira, 8 de junho de 2012

O meu tio Miguel Ângelo




O meu tio Miguel ângelo - A segunda “grande” viagem da minha vida

Não posso falar da segunda sem antes fazer uma referência à primeira.

Eram assim os combóios naquele tempo.

A primeira aconteceu quando eu tinha cerca de quatro anos de idade. Lembro-me do cheiro do trem, misto de comida, de farda de soldados, de fezes de porco e de galinha, vapores de uma fábrica que me passava pela janela quando despertei. 



Foto da Estação de Peso da Régua.

Tinha embarcado á noite em Peso da Régua e ia para o Porto, para depois fazer o traslado para Lisboa. Dormi por bom tempo, porque estava nascendo o dia quando vi a tal fabrica passar pela janela bem devagar. O trem era a vapor, apitava, e nos túneis nos enchia de fumaça, a ponto de todos correrem a fechar as janelas. Olhei à minha volta e vi umas senhoras idosas no banco de trás. Uma estava levantada, ajeitando a sua bagagem na prateleira. Ela ria, todos riam, porque um porquinho que ela levava numa caixa resolveu urinar em cima das pessoas que estavam em baixo. Com o alvoroço, e os comentários, galinhas cantaram. O cheiro de fardas do exército, cinzas, com cintos e botas pretas enceradas com banha de porco provinha dessa mistura. Lembro-me a chegada à Campeã, e a chegada a Lisboa. Eu viajava com minha avó. Possivelmente com mais alguém, mas essa viagem deve ter sido traumática, porque não me lembro de mais ninguém de família ou de amigos nesse trem, a pesar de minha excelente memória. Nem do resto da viagem. Provavelmente estava muito entregue a meus pensamentos ou dormindo de cansado. lembro sim, do transbordo na estação do Porto, para pegarmos o combóio para Lisboa.


A foto é da Av. Almirante Reis junto ao Largo do Intendente onde meu tio trabalhava e morava. Eu, minha tia e minha avó, morávamos umas duas quadras acima, na Rua Francisco Sanches, 26. A dona do andar era a dona Lucília que morava com uma irmã, as duas idosas.   

Havia-me mudado definitivamente de minha terra, Fornelos, em Santa Marta de Penaguião, para Lisboa. Minha vida seria lá, a partir da chegada à estação de comboios de Santa Apolônia.Dois anos depois, meu pai foi para o Rio de Janeiro. Fiquei em Lisboa com meu tio Miguel Ângelo, minha tia Elisa e minha avó paterna, Maria de Jesus Pinto Nogueira. Deixara lá a minha mãe que viria a falecer, muito jovem, em seis anos. Morreu aos 30.

Minha escola primária no Largo do Leão.

Um ano depois eu já estava na escola do Largo do Leão, já lia, escrevia uns bons garranchos. Meu tio Miguel era um “boa pinta”, coisa de ator de cinema. Eu queria ser como ele. As namoradas eram de fechar o comércio, todas bonitas, lindas, cheirosas. Naquela época estava na moda uma canção da Carmem Miranda que cantava " chiquita bacana lá da Martinica".  



Largo de Arroios onde meu tio se encontrava com a namorada. Na parte atrás do fotógrafo fica a ponte da Rua Pascoal de Melo, onde moravam minha prima Alice e a Fernanda, com o Teófilo. Ele tinha uma voz "esquista" porque respirava mal por causa de um ataque cardíaco que tivera. 

Na brincadeira ele dizia que elas eram também minhas namoradas. Eu sabia que não, mas ele não sabia que eu sabia. Nunca contei a ninguém que na minha  infância infantil de 4 anos uma menina um pouco mais velha me convidara para ir para o caminho da estrada para passear e que debaixo das parreiras fiquei a saber a diferença entre meninos e meninas... Como esquecer aquelas calcinhas de algodão e o que estava por debaixo delas? Ora, as namoradas de meu tio, quando eu tinha sete anos, não me iriam mostras as suas calcinhas, nem mais ou menos... Em compensação, já que não as dividia realmente comigo, meu tio trazia-me quase todos os dias uns chocolates da venda, ou umas bolachas, rebuçados, pirulitos. Um dia ele tinha comprado um lenço de cabeça para a namorada como presente de aniversário. Era um lenço verde com pintas brancas, de seda muito fina. Minha tia que fuçava tudo descobriu o lenço e ficou muito feliz e acabou por ficar com ele. Dessa confusão que se seguiu, eu não me esqueço. Descobri pela primeira vez que até família unida pode ter as suas desavenças por coisas que não valem nada. 


Esse de óculos embaixo parece ser o meu tio. A foto peguei na net. Terá sido sorte, ou não é ele?

Para a escola, eu ia a pé, mais ou menos oito quarteirões. Com essa idade, minha vida era levantar, ir para a escola, assistir ás aulas, correr até suar no recreio, almoçar na escola o almoço que minha tia Elisa me levava, voltar a estudar, voltar para casa, comer um lanche, fazer os trabalhos de casa, jantar, assistir ás notícias do dia no rádio, e dormir. As sextas feiras passava um programa da Maria Manuela Patacho com histórias faladas com vários personagens. Era a minha única grande diversão! Isso e me divertir no recreio da escola. No dia seguinte, tudo nova e exatamente igual. Aquilo para mim era uma prisão, um tédio, mas gostava de estudar. Era tudo pelo futuro. 

A foto abaixo é do largo do Intendente

Imaginem quando meu tio Miguel me perguntou, uns três dias antes do grande dia, o da viagem,  se eu queria ir com ele numa excursão que passava pela barragem do Castelo do Bode... Meus pulmões não cabiam no peito, o coração acelerou, a vista ficou turva, e comecei o meu chorrilho de perguntas que nunca mais acabavam. Quanto tempo seria a viagem, aonde íamos, o que havia lá, como era o ônibus, de que cor era, como eram as estradas, se tinha rios, se tudo era parecido com Fornelos...



Não dormi durante três dias e três noites. Nem pregar olho... Quando ia dormir, o papagaio do corredor gritava: “Olá... Quem passa?... É o rei que vai pra caça... Ó papagaio looooouuuuroooo”. E lá ia eu sonâmbulo para o colégio.
Não perdi um só segundo da viagem, olhando as paisagens, casas, mosteiros, a cidade de Caldas da Rainha, o Mosteiro da Batalha a barragem do Castelo do Bode com a água represada de um lado e o rio pequeno, diminuto, lá embaixo, do outro lado.  Aquilo me impressionou. Talvez um dia viesse a ser engenheiro, porque eu ia muito bem nas matemáticas e nas ciências.   
Lembro-me vagamente do grupo (da malta) que dizia que eu era bem comportado, das fotos, dos prédios, das paisagens planas que eram tão diferentes das montanhosas de minha terra natal. Durante a viagem vinha um cheiro a feno que entrava pelas janelas, e isso me lembrava o sabonete que usávamos lá em casa: Feno de Portugal. Olhei em todo o ônibus. Não vi nenhuma mulher por quem meu tio pudesse interessar-se. Afinal, nós tínhamos o mesmo gosto para elas. Até as dividíamos... E sei que se houvesse alguma, ele ia dar aquela piscada fatal que me ensinou a dar. Na minha inocência de então, fiquei impressionado como que as mulheres se impressionavam com uma piscadela, sem saber quem o sujeito é, o que faz, o que quer. Sempre perguntavam depois, quando já estavam "amarradas". Perguntei-me, sem dar muita importância, porque razão o meu tio não tinha levado a namorada na excursão. Só meses depois descobri.Meu tio também me deixava. Ia para o Brasil, para ganhar a vida junto com o meu pai. Eram irmãos, amigos, seriam sócios.

A loja de meu pai e meu tio era na Rua Alexandre Mackenzie. no centro do Rio de Janeiro, na foto abaixo, no segundo prédio da direita para a esquerda. 

Depois dessa viagem, se a vida já me parecia uma prisão, passou a ter vapores de algo pior. Saudades dos bons tempos, das canções da ‘Chiquita bacana lá da Martinica “ da Carmem Miranda, dos passeios com as namoradas de meu tio, dos doces que me trazia, do óleo do fígado de bacalhau que me ajudava a tomar, dizendo-me que "um homem é um homem e um bicho é um bicho" e que os homens têm que ser fortes. Saudades do meu tio que me ensinava a ler e a escrever e que leu um livro sobre um velhinho que se tinha perdido da família e que na noite de natal, pobre e esfarrapado, batera à porta da sua própria família para pedir uma esmola e saiu sem dizer quem era... Meu tio me ensinou também os bons sentimentos.




Grande tio, por uns tempos o meu pai, sempre o meu grande amigo, um exemplo de homem forte, determinado, a quem nunca vi discutir em família.  Sei que cada um é como é. Ele é assim.Um grande abraço, tio Ângelo, cheio de saudades e como novidade, meu filho Beto é muito parecido com o senhor. Nunca o ouvi levantar a voz pra ninguém. É verdade que meu pai também era assim. 


Rui Rodrigues