Arquivo do blog

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Homens e mulheres à frente do “seu” tempo!



Homens e mulheres à frente do “seu” tempo!
(E o mundo que herdamos)

Não há neste texto nenhuma referência específica a algum personagem histórico ou familiar que tenha as características de estar á frente de “seu” tempo, como se costumam vangloriar alguns personagens que conhecemos de nossa vida familiar e no meio de amigos e amigas, ou de fatos históricos que costumamos exaltar. Até mesmo porque ninguém está à “frente” de seu tempo. O que se pode é estar à frente de conceitos e preconceitos em relação ao senso comum do que são as formas “normais” de se agir em sociedade, grupos ou nações, afastando-nos de tais conceitos, preceitos, preconceitos, tradições. No fundo todos nós, sem exceção, temos um desejo hereditário, genético, de mudar o mundo. Não fosse esse desejo, não construiríamos nada, não estudaríamos para descobrir novos materiais, novas filosofias, o mundo ficaria parado, não haveria evolução. Com muito vagar vamos descobrindo coisas novas a cada dia, rejeitando o que não desejamos, lutando contra o que nos aflige e nos é difícil extinguir, adquirindo novos hábitos que nos parecem interessantes.

Herdamos um mundo. Todas as gerações herdam o mundo que seus antecessores lhes deixam, inacabado, imperfeito, à disposição para ser alterado, mudado, revirado do avesso. Creio que existe uma memória “genética” que interfere no relacionamento das novas gerações com as anteriores, principalmente no relacionamento entre filhos e pais. Vou mais longe: Na inconformação com o mundo que se lhes depara, cheio de imperfeições, filhos culpam os pais e as gerações passadas, lá no fundo de sua “ID” [1], por herdarem essas imperfeições, e mais particularmente, mas agora nem sempre, da condição de vida que herdaram de seus genitores com variância de grau, isto é, uns mais outros menos.

No caso específico do termo “mulheres à frente de seu tempo”, ou de homens à frente de seu tempo, refere-se este a mulheres que contestam os hábitos tradicionais e agem de forma diferenciada, rejeitando esses hábitos e adotando novos. Esses hábitos são sociais, políticos, pessoais, de comportamento. No mundo que vemos hoje, é como se o comportamento masculino fosse a “senilidade” e o feminino a “juventude” contestadora: os homens no poder na França de 1968, as mulheres montando barricadas nas ruas de Paris contra os métodos e conceitos da educação francesa da época. Ou as mulheres pelas ruas sendo presas porque faziam passeatas em Londres e Paris exigindo o direito de também poderem votar nas eleições. Cheias de razão, evidentemente. A mesma razão que tiveram para acabar com os cintos de castidade, uma geringonça que os maridos lhes punham, feita de aço ou couro, com cadeado, aplicada ao sexo para que não fossem violadas ou se aproveitassem da ausência dos maridos para praticar sexo com o risco de gerarem filhos bastardos.

Mas de onde veio essa tradição de que o homem é quem mandava nos filhos e nas mulheres?

Se não voltarmos muito tempo atrás, podemos atribuir esse vilipêndio ao direito romano que se baseava no “pater famílias”, cujo código foi aprovado numa sociedade em que os “patrícios” ou nobres faziam as leis para uma massa social constituída de escravos, artesãos, soldados e mulheres, velhos e crianças. O direito romano zelava pelos direitos dos homens, calava as mulheres e crianças que não tinham direito a nada, nem a falar. Os “pater família” podiam inclusivamente dispor da vida de suas esposas e filhos. Foram os homens que redigiram e aprovaram o código romano.

Mas podemos ir mais longe, para trás no tempo e ler por volta do ano 623 da nossa era, o Corão, escrito por homens. Também este livro separa os direitos dos homens e das mulheres, dando todos os direitos aos homens e tirando todos os direitos das mulheres. Seria então o Corão o culpado pelos hábitos e tradições que tiraram os direitos das mulheres por séculos? Parece que não, porque ainda podemos voltar atrás mais uns séculos no tempo, e lermos o que escreveram nos livros sagrados cristãos por volta dos anos 60 – 70 de nossa era. Estes textos não descriminam tanto a mulher como o Corão, mas, também escrito por homens colocam as mulheres em um estado tão ausente que até hoje a Igreja católica, a precursora das igrejas de Cristo, não aceita mulheres em suas fileiras hierárquicas, e tão cedo não se verá uma Papisa. Ao que parece, a religião muçulmana e a católica vêm na mulher algum tipo de “impureza” que as faz manter afastadas dos diálogos com “Deus”, não lhes concedendo também o dom de “perdoar” pecados. Será Deus uma entidade discriminante e discriminatória? .
Mas como podemos ainda voltar mais atrás no tempo, veremos que a culpa também está em outros textos mais antigos ainda, como se as “tradições” viajassem – e viajam – no tempo, sendo adotadas porque estavam “funcionando” nas sociedades onde foram iniciadas.

E voltamos então a cerca de 6.000 anos AC, á religião judaica. Está escrito no Gênesis a descriminação de Eva, a culpada por desviar Adão da obediência às leis de Deus e os castigos que tanto Adão quanto Eva teriam recebido de Deus. A mulher seria sempre tentada pelo mal (a cobra que lhe morde o calcanhar) e seria serva do homem a quem teria que obedecer. Quer a religião muçulmana quer a católica descendem da religião judaica. Seria então a religião judaica a responsável pela descriminação da mulher? Somos levados a pensar que não. Teremos que voltar ainda mais no tempo, á época em que os homens e as mulheres viviam em cavernas e não tinham religiosidade como a conhecemos hoje. Sabiam que existiam forças na natureza, raios que matavam, que as pessoas morriam mesmo sem lutar, sem serem feridas. Enterravam seus mortos deitados de lado, com os joelhos dobrados sobre o estômago, cobrindo-os de flores e colocando pedras em cima. Não se sabe se as pinturas rupestres foram pintadas por homens ou por mulheres, mas parece que as mulheres, que não tinham de sair para caçar deveriam ter mais tempo para se dedicarem á arte, e os traços são incrivelmente suaves para a brutalidade necessária a caçadores. Os homens, esses se ausentavam por vezes por dias. Eram fortes, musculosos, massas brutas prontas a matar para se alimentarem e para defenderem a sua prole e o seu grupo. Sem leis escritas, era necessário que alguém exercesse a liderança nos grupos que por aquela época, ainda sem agricultura não passavam dos 100 elementos. Os alimentos disponíveis num entorno não permitiam grupos maiores sob risco de terminarem rapidamente e os obrigarem a mover-se da caverna ou do lugar para outros mais distantes. Chegados nesses lugares, a mesma organização deveria ser mantida para que o grupo pudesse sobreviver sem lutas internas para disputar os alimentos. Essa organização incluía o chefe, o macho alfa, o mais forte e ativo, um intermediário entre o grupo e as forças da natureza incluindo a sabedoria sobre as plantas comestíveis e medicinais, os caçadores, e o resto: Idosos crianças e mulheres. Se atentarmos para esta organização, veremos que um líder ou chefe, não precisaria ter muito trabalho para governar: as mulheres eram dominadas pelos homens, e cuidavam dos idosos e das crianças. O chefe teria assim, de um grupo de cerca de 100 pessoas, que governar apenas os caçadores, cerca da sexta parte: 15 cidadãos.

Esta organização saiu das cavernas e passou para as cidades como tradição, quando se descobriu a agricultura. Um rei teocrático governava na realidade um sexto da população, considerando que as mulheres não tinham voz ativa e eram da responsabilidade de pais e maridos. Esta organização consta nos livros que chamamos sagrados, chegou até nós viajando desde cerca de três milhões de anos atrás, e está viva, operante, embora com algumas alterações que de tão tênues, pouco se nota a diferença, bastando atentar para a proporção de homens e mulheres nos postos de governo, na diferença de salários, nos casos de violência policial de homens contra as mulheres, nas fábricas, nos postos de trabalho braçal ou técnico e de gestão do trabalho, nas universidades.

Se formos buscar culpados teremos que buscá-los em nós mesmos que não mudamos ainda a nossa forma de entender o mundo. O mundo humano é apenas uma parte de um mundo maior limitado pelas dimensões deste planeta em que vivemos. Precisamos mudar alguns importantes conceitos para que possamos viver em paz entre os homens e as mulheres de forma a desenvolvermos as condições necessárias á manutenção da vida.

Este planeta não se destina a ser dividido, mas á vida da humanidade, concentrando os esforços na sua manutenção e não na sua divisão. Não há outra forma de continuarmos vivendo sob um mínimo de condições auto-sustentáveis.

Paz na terra aos homens – e mulheres – de boa vontade!... E mude-se tudo o que deve ser mudado.

Rui Rodrigues

A ID segundo Sigmund Freud - Divisão do Inconsciente

Freud procurou uma explicação à forma de operar do inconsciente, propondo uma estrutura particular. No primeiro tópico recorre à imagem do "iceberg" em que o consciente corresponde à parte visivel, e o inconsciente corresponde à parte não visivel, ou seja, a parte submersa do "iceberg". De sua teoria ele estava preocupado em estudar o que levava à formação dos sintomas psicossomáticos (principalmente a histeria, por isso apenas os conceitos de inconsciente, pré-consciente e consciente eram suficientes). Quando sua preocupação se virou para a forma como se dava o processo da repressão, passou a adotar os conceitos de id, ego e superego.
§                    O id representa os processos primitivos do pensamento e constitui, segundo Freud, o reservatório das pulsões, dessa forma toda energia envolvida na atividade humana seria advinda do Id. Inicialmente, considerou que todas essas pulsões seriam ou de origem sexual, ou que atuariam no sentido de auto-preservação. Posteriormente, introduziu o conceito das pulsões de morte, que atuariam no sentido contrário ao das pulsões de agregação e preservação da vida. O Id é responsável pelas demandas mais primitivas e perversas.
§                    O Ego, permanece entre ambos, alternando nossas necessidades primitivas e nossas crenças éticas e morais. É a instância na que se inclui a consciência. Um eu saudável proporciona a habilidade para adaptar-se à realidade e interagir com o mundo exterior de uma maneira que seja cômoda para o id e o superego.
§                    O Superego, a parte que contra-age ao id, representa os pensamentos morais e éticos internalizados.
Freud estava especialmente interessado na dinâmica destas três partes da mente. Argumentou que essa relação é influenciada por fatores ou energias inatas, que chamou de pulsões. Descreveu duas pulsões antagónicas: Eros, uma pulsão sexual com tendência à preservação da vida, e Tanatos, a pulsão da morte, que levaria à segregação de tudo o que é vivo, à destruição. Ambas as pulsões não agem de forma isolada, estão sempre trabalhando em conjunto. Como no exemplo de se alimentar, embora haja pulsão de vida presente, afinal a finalidade de se alimentar é a manutenção da vida, existe também a pulsão de morte presente, pois é necessário que se destrua o alimento antes de ingeri-lo, e aí está presente um elemento agressivo, de segregação.





[1] ID – Segundo Sigmund Freud, ver no final do texto 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Grato por seus comentários.