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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Uma extraterrestre como nunca tinha visto


Uma extraterrestre como nunca tinha visto

Um dia recebi aqui no Bar do Chopp Grátis uma carta deixada sobre o balcão. Não vi quem a deixou lá, mas estava dirigida ao Bar. Deixei para ler depois que encerrasse o expediente. Como eram apenas quatro da tarde e o Bar não fecha, ainda era cedo para lê-la. Deixaria para mais tarde não sabia ainda quão tarde seria. Não deveria ser importante. Se fosse, teriam me dirigido a palavra. Estranhei o papel. Não era papel, não era plástico, mas era diferente. Talvez um novo tipo lançado na praça e do qual ainda não tivera notícia. Foi a primeira coisa estranha do dia. Depois foi o movimento do salão, um pouco mais tarde. Eram mais ou menos umas dez horas e o bar estava cheio. O pessoal só costumava começar a sair por volta da uma da manhã, mas lá pelas onze da noite começou a chover torrencialmente. Podia ver-se pelas ruas as rajadas de vento empurrando cortinas de chuva uma atrás da outra. O pessoal do Bar começou a pedir as contas e a sair. Talvez temendo uma inundação. Provavelmente eu não receberia mais fregueses. Com uma chuvarada daquelas ninguém se arriscaria a sair de casa para tomar uns drinques, jogar papo fora, comer uns belisquetes. Ás onze e meia não havia mais ninguém, quando de repente...

A porta do bar se abriu e uma morena entrou. Usava uma capa do tipo gabardine, com um lenço de seda enrolado no pescoço. Mesmo vestida podia-se avaliar as curvas do corpo. Sempre me perguntei quem determina as medidas para a escolha de miss Universo, e se aquela morena não estivesse com as medidas certas para ser a eleita, então as medidas teriam que ser revistas. Entrou, deu uma olhada a toda a volta, fixou o olhar em mim, e dirigiu-se a uma mesa. Os garçons aproveitavam o momento para dar uma limpeza geral, discreta. Dirigi-me para a mesa dela. Eu mesmo receberia o pedido. Fiquei tonto com os olhos e a cor dos olhos dela. Eram olhos ligeiramente maiores do que o normal, ligeiramente alongados, e de cor entre azul claro e violeta.  A pele lembrou-me o envelope da carta que haviam deixado sobre o balcão, mas achei que era uma idiotice minha. Era parecidíssima com a Sheron Meneses, o mesmo jeito alegre e desprendido, mas discreta. Não pude evitar pensar que aquela mulher numa cama devia ser uma loucura. Ela sorriu-me. Seria demasiado pensar que lia meus pensamentos.

- Estou com fome – Disse ela –... E com sede...  Vamos ver (e olhou o cardápio).

Fiquei ali, pasmado, vendo a beleza da Sheron Menezes, isto é, daquela mulher do outro mundo, de olhos violeta, com voz que parecia a da Íris Letieri dos anos 80, aquela que anunciava as partidas e chegadas de aviões ao aeroporto do Galeão...  Não pude evitar me sentir um perfeito idiota, desejando aquela mulher como se fosse um objeto, mas não era isso. Acho que quando se fala em mulher ou homem objeto, é muito mais do que isso. É um desejo de compartilhar não apenas o corpo, mas também a voz, os sentidos, o tato, o odor dos perfumes, os sentimentos, as batidas do coração e as ondas cerebrais que passam pelos olhos e comandam os movimentos. Não se raciocina quando se está nos braços de uma mulher. Se raciocinássemos não estaríamos em seus braços: Faríamos sempre um contrato antes para evitar encrencas futuras. Mas isso era um pensamento machista e deixei de lado. Ela era um pitéu. Interrompeu meus pensamentos e deu-me um sorriso maravilhoso. Será que ela sabia o que eu estava pensando? Será que as ondas cerebrais funcionavam? Senti que daria vexame se eu deixasse aquele monstrinho inflar minhas calças e inclinei um pouco a minha coluna para frente de forma a minimizar os sinais sexuais que meu cérebro não podia conter. Imaginei uma faca caindo do alto e o bicho foi para o lugar, recolheu-se.  Negócios são negócios e o Bar é um negócio.

- Pronto... Decidi!... (Disse ela com outro sorriso que também devolvi)... Quero Uma porção destas lulas recheadas cortadas em fatias, com queijo roquefort, torradas de pão de centeio e um suco gelado de manga, mas sem gelo, com uma medida de vodka.   

Nunca me tinha acontecido uma coisa daquelas. Uma paixonite aguda, instantânea, amor à primeira vista, um desejo quase irreprimível, vontade de ir com ela para onde fosse, largar tudo. Foi assim que me dirigi ao bar para preparar o pedido. Junto ao caixa estava lá a carta esperando para ser lida. Toquei novamente no envelope, curioso pela semelhança com a pele da morena. Enquanto preparava o suco, esperando pelo pedido da cozinha, imaginei-me com ela no sofá do escritório, fazendo misérias, beijando-a, tocando-a em todos os recantos, gozar com seu gozo, ir ao delírio dos céus. Caí na realidade depois que retirei o gelo do suco porque a manga não estava gelada e ela não queria gelo. Senti que a enganava, mas para atender o seu desejo de suco gelado de manga sem gelo tinha que ser dessa forma: juntar gelo ao suco, sacudir muito bem no shaker, e depois despejar no copo.

Quando cheguei à mesa, ela tinha tirado a gabardine e estava... Nem agüento pensar... Linda, com uma pele maravilhosa, seios bem desenhados, duros, os mamilos mais assanhados que o meu monstrinho que eu assustara minutos atrás para não aparecer demasiado. O decote da blusa era generoso, e o peito dela arfava. Já não sorria, porque concentrava seu olhar nos meus olhos. Eu fora apanhado. Estava perdido. Completamente perdido. Certamente ela havia passado o tempo de espera pensando em mim. Talvez até me estivesse observando de longe. Coloquei os pratos sobre a mesa, o copo com o suco.

- Quer me fazer companhia? (perguntou ela, enquanto se servia cuidadosamente). Parece que o bar está vazio. Estamos sozinhos. E me olhou com aqueles olhos que me entonteciam, que me paralisavam os meus. Chamei um dos garçons, o que estava mais perto e fiz-lhe um sinal. Ele sabia o que eu queria e me trouxe uma caipirinha de limão galego. Começamos a conversar.

- Hoje estou só – disse a morena – Precisava sair, espairecer, sentir-me livre. Com esta chuva não podia haver lugar melhor. Sinto-me bem, na sua companhia. Não sei porquê.

- Bom... Sempre procuro transmitir tranqüilidade e paz para meus clientes (disse-lhe eu). E para você em especial. Não sei porquê, mas é como sentir o que sente e tentar atender. É incrível, mas sinto que desejo fazer-lhe todas as vontades. Você me desperta esse tipo de sentimento.

Ela pousou a mão sobre a minha e me olhou nos olhos. A pele era igual ou muito parecida com a do envelope. E a partir daí não me lembro muito bem do que conversamos. Lembro-me de algumas coisas. De ter ido para o escritório, de termos tirado a roupa, de nos abraçarmos, nos amarmos perdidamente, mas por flashes, não de forma contínua como num filme. Seus lábios, suas pernas se abrindo, os gemidos quase imperceptíveis e o tremor quando atingiu o clímax.

Disse-me antes de sair:

- Meu deus! Passei da hora. Tenho que ir-me.

Vi-a sair pela porta depois que virou o rosto para trás e me olhou pela ultima vez nos olhos. Estava feliz, talvez tanto quanto eu estava. Olhei o relógio. Era uma hora da manhã. Avisei o gerente que poderia ir para casa. No seu olhar nem sinal de que sabia – e sabia – o que se tinha passado no escritório. Tinha dispensado o pessoal por causa da chuva como combinado para dias como esse. Relaxado, passei pelo balcão e voltei a ver a carta. A morena havia saído há momentos e já sentia saudades dela. Abri a carta e fui lendo, cada vez mais surpreso a cada linha que lia:

“Gosto de dias de chuva. Se olhar lá para fora, verá que passou de chover (olhei e a chuva tinha passado). Gostei muito de você, e como gosto de ser desejada, nada melhor do que ser desejada por quem se deseja também. Dizem que isso é amor. Creio que não, mas fiz com amor com você. Com amor é muito mais agradável. Perceberá que não sou daqui, e para onde vou levarei uma lembrança sua. Uma lembrança viva. Pode ter certeza que cuidarei muito bem. Talvez nos voltemos a encontrar. Eu gostaria muito, mas não todos os dias. Um enorme beijo. Durma com minhas lembranças. Dormirei com as suas. Para sempre! Quanto às lulas recheadas cortadas em fatias, se usar um pouco de ovo batido no recheio, ele se mantém dentro do anel de carne da lula. O resto, o queijo roquefort, as torradas de pão de centeio e o suco de manga com vodka, estavam também maravilhosos. Beijos! – P.S. - se desejar me escrever, escreva e ponha dentro do envelope. Espere uns minutos e abra novamente. Poderá ter uma resposta minha“.

Nessa noite não dormi.  

Rui Rodrigues




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