Discurso de natal para Maya.
A família estava reunida.
Uma discreta árvore de natal tradicional, apenas por tradição, assistia
piscando sobre um móvel afastado da mesa central. O velho avô de 70 anos estava
atrasado. Nestes dias festivos os transportes ficam desnorteados nas estradas
com as vias tão congestionadas que nem Vick Vaporub é capaz de desentupir. A
netinha brincava na sala entre olhares para a mesa verificando se os doces
ainda estavam lá, e pela mesma razão a base do móvel onde jaziam caixas surpreendentes
embrulhadas em papeis mágicos, amarradas por laços coloridos, prestes a se
libertarem. Natal é uma data mágica, onde pessoas comemoram qualquer coisa
irreal, cheia de coisas reais para dividirem: Comidas, presentes, lembranças, o
convívio. Sobretudo lembranças e convívio. As comidas e os presentes são
totalmente desnecessários.
Para a netinha de cinco anos,
quando o avô chegou foi o sinal de que mais uma festa de natal iria começar.
Lembrou-se de duas, as últimas. Das três primeiras só de uma foto – onde
andaria a foto? [1]
- ela ainda num carrinho de bebê, olhando encantada para um papai Noel
mecânico, maior que ela, de corda, gordo, que cantava à porta de um mercado no
Leblon. Lá o apartamento era menor. Preferia agora a casa que lhe parecia enorme.
Pena que não estivesse sempre assim, cheia, com doces, gente e presentes. Ou não? Estava em dúvida. Também
gostava de ter seus momentos livres de “muita gente”. O convívio ficava muito
mais gostoso quando era de vez em quando. Tinha aquele sentimento de “é hoje
que vou voltar a ver o vovô”, por exemplo. Se o vovô convivesse diariamente com
ela, quem sabe, seria mais um “cara chato” a atazanar-lhe a vida com aquelas
frases que ela já conhecia: Assim não pode... Não vai para aí... Cuidado... Vem
cá, Maya... Vai fazer os trabalhos da escola...Tira essa roupa que está toda
suja... Onde foi que arranjaste mais essa nódoa negra nas pernas? Para Maya
aquela noite de natal jamais deveria terminar e ela estava bem preparada: Não
tinha nem um pingo de sono. Mas tão certo como dois e dois serem quatro - já sabia contar - alguém
teria a triste idéia de a mandar para a cama antes do tempo. Tentaria comer a
maior quantidade de doces que pudesse até chegar essa triste hora.
Eram uma família unida e
interessante. Os avós estavam separados, mas era como se sempre estivessem
juntos. Não discutiam, davam-se bem, cooperavam entre si. Ambos amavam a
netinha, ela, Maya. A mãe era uma bela amorosa, a avó também, mas era aliada da
mãe na hora de lhe cobrarem dela certas coisas que Maya até achava demais. Soube um
dia que a mãe disse para os avós com a mesma idade que ela agora tinha: - Vou arrumar minhas malas
e vou deixar vocês.... Como pais vocês dois são muito chatos... Os avós tiveram
um trabalhão para convencê-la que era preciso comprar passagens, que as lojas
já estavam fechadas, que era preciso tirar uma certidão para ela poder viajar
sozinha, avisar se a bisavó, a Susana, podia ir apanhá-la no aeroporto de Porto
Alegre.. E... E... E tantos “e” que a mãe desistiu sob promessa de que não
seria mais tratada de forma tão “chata”. O tio de Maya fazia comidas super
gostosas, principalmente sushi que ela gostava tanto. Já tinha sido ator de cinema. Era viajante... Andara pela Europa um tempão,
cozinhando, conhecendo o mundo. Só o conheceu numas férias dele. Depois voltou
e agora estava ali, um bom companheiro. Tiozão. Ainda bem que ele não tinha
filho, porque assim lhe dava toda a atenção a ela. E havia os amigos e amigas
da família que visitavam aquela casa. O
bom era que todos sem exceção, não ficavam conversando sozinhos sem lhe dar
atenção. Todos a incluíam nas conversas, e a faziam sentir-se uma “deles”,
completamente integrada sem qualquer tipo de rejeição. Ela se sentia muito bem.
Chegara a hora de ver os presentes. A sala se encheu de alegria. De qual
presente ela gostaria mais? De todos. Todos os presentes teriam seu dia de uso.
Ao final da refeição,
ergueram-se brindes á vida. Maya ergueu seu copinho de leite de chocolate, e
logo em seguida viu o avô tirar umas folhas do bolso e dizer: Vou fazer um
brinde. Trouxe o discurso pronto. Maya disse rindo: Vovô... Vai só dizer o
brinde ou vai ler uma historinha pra mim? Tem muitas folhas escritas...O avô
sorriu e disse, lendo a primeira folha:
- Faço um brinde como um
desejo quase cumprido. Vou ler o meu discurso de trás para frente. Começarei
pela ultima página que corresponde ao presente. As outras são do passado...
Somos uma família unida que
por circunstâncias vive separada, mas sempre unida construindo uma vida juntos,
garantindo-nos uns aos outros, e mesmo que apenas em apoio moral, já é muito
mais que suficiente e aquece a alma todos os dias mesmo quando não é dia de
natal. Pois então, que assim continue sendo... Sabemos que amores não morrem,
apenas se transformam numa série interminável de outros onde todos estão sempre
presentes. Que continuemos nos amando como sempre nos amamos.
Dito isto, guardou todas as
folhas no bolso.
- E as outras folhas, avô...
Não vai ler? Disse Maya desapontada.
- As outras folhas, netinha,
são do passado e estão em branco porque cada um de nós tem suas lembranças. É
um passado para ser reescrito com os olhos do presente. O que foi bom
continuará bom e viverá sempre em nossas lembranças. O que não foi tão bom está
em branco... Um dia você terá seus dias de consultar as suas páginas em branco
da vida, páginas que você mesma escreverá a cada dia em conjunto
com todas as pessoas que com você conviverem.
A família continuou
conversando. Maya gostou muito das histórias que contaram, como aquela da avó
Suzana –sua bisavó – no dia em que ela desembarcou no aeroporto do Galeão, vinda
do Sul, carregando um saco de presentes e vestida de papai Noel. Tivera o maior
trabalho em se vestir no lavabo do avião antes da aeromoça avisar para
apertarem os cintos. Foi a primeira vez que Betinho, seu tio, também com a
idade dela, mais ou menos com cinco anos viu pela primeira vez um papai Noel de
verdade.... Papai Noel não... Só depois de abrir o berreiro é que viu que era
Vovó Noel...
Será que Maya entenderia o
que o avô lhe disse? Claro que entendia. A lembrança de Suzana fazia parte das lembranças das páginas em branco do livro da vida. O Avô já fora criança, lembra-se ainda
de coisas que aconteceram quando ele tinha dois anos e meio, com testemunhas
que já faleceram, e não menospreza a inteligência de ninguém, muito menos de
uma criança, sempre curiosa, com todos os neurônios, irrequietos, entrando a
todo vapor nos seis anos...
® Rui Rodrigues – Papai Noel
delegado.
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